Mini-editorial do O Globo de hoje (pág. 8) diz o seguinte:
“TEMEROSAS com o risco de serem supreendidas no feriado por mais um curto-circuito aéreo, muitas pessoas se aventuraram nas estradas.
FUGIRAM DA ameaça de um apagão e encontraram outro: pistas mal conservadas, atulhadas de veículos, vários conduzidos de forma irresponsável.
O RESULTADO foi o aumento de mortos e feridos em relação à Semana Santa anterior, a ser debitado ao apagão de infra-estrutura que o país enfrenta.”

Esse mini-editorial tem a ver com a matéria de ontem, que continha algumas informações fundamentadas em pesquisas e outras que saem da cabeça de alguém e ganham status de verdade, ainda que sem base científica alguma. Juízos sem fundamentação. Vamos às afirmações e juízos que farei, devidamente fundamentados, que mostram o desserviço prestado por matérias e editoriais como esses:

1. A principal causa de situação de insegurança nas rodovias e de acidentes é a imprudência dos motoristas. Isto é constatado pelas pesquisas do IPEA, recentemente apresentadas com dados atualizados. A Pamcary, gerenciadora de riscos com milhares de acidentes com caminhões, estudados minuciosamente, informa que as principais causas são: excesso de peso por eixo e cansaço (aliado ao uso de anfetaminas e outras drogas). Em terceiro lugar vem a condição peculiar de uma rodovia, normalmente combinada com os dois fatores principais: a existência de uma curva mais fechada, durante uma descida. A existência de curva mais fechada, normalmente, tem a ver com as condições do relevo, em regiões onduladas ou montanhosas.

2. A Pesquisa do IPEA – sobre os custos dos acidentes rodoviários – mostra que o maior se dá na malha rodoviária estadual paulista, reconhecidamente a melhor do país, com padrões nódicos. Então, onde está a relação entre estradas mal conservadas e acidentes?

3. As rodovias não estão em condições precárias de conservação. Desafio a qualquer um a procurar na pesquisa da CNT – feita em julho de 2006 – algum dado que confirme essa afirmação. Ao contrário, a pesquisa mostra que os pavimentos e a sinalização, das 109 ligações rodoviárias, apresentam médias 79 e 71, respectivamente. Isso numa amostra de 55 mil quilômetros, sendo 37 mil de rodovias federais e 18 mil de estaduais. Na avaliação específica dos pavimentos, a pesquisa mostra que apenas 10% do total pesquisado apresenta predominância de buracos, inclusive nos acostamentos. De lá para cá, tanto o governo federal como os governos estaduais já investiram alguns bilhões de reais em suas malhas, inclusive com um inédito Programa de Sinalização em que o DNIT está restaurando as sinalizações horizontal e vertical de 48 mil quilômetros.

4. Finalmente, é uma enorme bobagem fazer qualquer conexão entre as crises do setor aéreo, provocadas pelos controladores, e o aumento de viagens de automóveis, ônibus, motos e caminhões. Este aumento tem a ver com o crescimento da economia, que gera mais viagens todos os dias e, especialmente, nos feriadões.

Portanto, se a mídia quiser prestar um bom serviço para reduzir os acidentes e a mortalidade tem que ir na principal causa: a imprudência e a agressividade dos motoristas, especialmente, os de carros de passeio.


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3 respostas a “O desserviço prestado por parte da mídia em relação aos acidentes rodoviários”

  1. Avatar de Anonymous
    Anonymous

    Parabens pelo Blog, as noticias estão cada vez mais discursivas, parabens

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  2. Avatar de Anonymous
    Anonymous

    Prezado Valente,Gostaria de parabenizá-lo pela iniciativa do Blog. Porém, devo dizer-lhe que é muito triste ver alguém, em cargo de tamanha responsabilidade, demonstrar que está satisfeito com o estado de nossas estradas federais. Pergunto a V.Sa. se já esteve nos EUA e, portanto, se conhece o que são estradas bem construídas e bem conservadas?Será que as pesquisas e os dados de V.Sa. levam em conta o cansaço e até mesmo a raiva que as nossas estradas causam aos motoristas e que podem, evidentemente, colaborar para provocar acidentes em nossas, em geral, péssimas estradas?Sou levado a pensar que V.Sa. ou sai pouco de Brasília ou, quando viaja, o faz de avião, pois não é possível que alguém nesse cargo tenha a coragem de elogiar o estado das nossas rodovias e, ainda por cima, negar que elas contribuam de forma importante para o nosso pornográfico índice de acidentes graves. E isto em um país que faz exigências absurdas e cretinas para se conseguir uma carteira de habilitação…Outro ponto que devo ressaltar é a ausência da Polícia Rodoviária Federal em nossas estradas. Não os vemos mais com os radares para monitorar abusos dos motoristas. Eu morei três anos nos EUA e lá, onde as estradas são impecáveis, vê-se pa resença constante de policiais para coibir abusos, enquanto aqui a PRF só atua quando os acidentes já aconteceram.Mais uma vez, parabenizo-o pelo Blog. Entrentanto, com toda a franqueza, de que país V.Sa. é Secretário da Política Nacional de Transportes? Será que estamos vivendo um pesadelo Stanilista no Brasil, onde a verdade é falseada e distorcida de todas as formas, para favorecer o Governo?

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  3. Avatar de José Luiz
    José Luiz

    Sem defender o jornal, mas sua avaliação é no mínimo equivocada:1. A PAMCARY analisou CAMINHÕES e no feriado o maior número de acidentes é com veículos de passeio, ou seja a análise não se aplica a este caso; ademais os itens avaliados são completamente diferentes dos aplicáveis a veículos de passeio que tem muito mais a ver com estado de conservação do veículo, imprudência, etc.2. A pesquisa do IPEA é óbvia: no estado de São Paulo está o maior número de veículos, portanto o número e o custo tem que ser maior, porém atente-se que proporcionalmente o número de mortos e feridos nestas estradas é menor – o que evidencia que rodovias em condições melhores salvam vidas;3. Salvo as pedagiadas, as demais estão em condições precárias sim, na maioria falta sinalização básica e até mesmo limpeza e conservação não só da pista de rolamento como também acostamentos, quando há;4. A crise aérea tem reflexos menores, o crescimento econômico é uma das causas do aumento, porém a inexistência de obras de ampliação do sistema rodoviário é gritante, facilmente comprovada: as obras de duplicação, adequação, enfim melhorias sã pífias e praticamente inexistentes.5. Infraestrutura é um investimento necessário, que infelizmente não é levado a sério em nosso País.6. Com sua experiência, pense sinceramente: o Sr. está escrevendo como um técnico responsável ou como político? Críticas são necessárias e salutares em qualquer democracia e a leitura superficial induz a erros.Boa sorte

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