• Transporte Aquaviário na Ilha do Governador: Menos Congestionamento, Mais Conforto

    A partir do post anterior com o título Abordagem especial sobre a Ilha do Governador, na nova licitação do aquaviário, surgiu uma demanda sobre a ligação aquaviária de e para a Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, objeto deste post.

    A Ilha do Governador, situada na zona norte do Rio de Janeiro, é uma das maiores e mais populosas ilhas da Baía de Guanabara, com uma localização estratégica e importância crescente no contexto da mobilidade urbana da região metropolitana. O terminal Cocotá, localizado na Ilha, desempenha um papel fundamental como alternativa ao uso de ônibus e automóveis, que congestionam as vias locais e as rotas de acesso à cidade. A revitalização desse terminal como parte da nova concessão do transporte aquaviário, destacada na recente licitação pública, é uma oportunidade crucial para melhorar a mobilidade da população da Ilha, ao mesmo tempo em que reduz os problemas de trânsito, poluição e longos tempos de deslocamento.

    Estação Cocotá como Alternativa ao Congestionamento e à Poluição

    Nos últimos anos, o crescimento populacional e a intensa urbanização da Ilha do Governador trouxeram grandes desafios para a mobilidade local. As principais vias, como a Estrada do Galeão e a Linha Vermelha, sofrem diariamente com congestionamentos severos, principalmente nos horários de pico. Além disso, o número crescente de veículos particulares e o transporte por ônibus, que compete pelo mesmo espaço viário, tornam os deslocamentos ainda mais lentos e desconfortáveis.

    O uso predominante de carros e ônibus para acessar áreas centrais do Rio de Janeiro aumenta não só o tempo de viagem, mas também os níveis de poluição atmosférica e sonora. As emissões de gases poluentes pelos automóveis e o tráfego intenso nas vias de acesso impactam diretamente a qualidade de vida dos moradores da Ilha, ao mesmo tempo em que agravam a situação nas áreas urbanas do entorno, como a região do Fundão e a Avenida Brasil.

    Diante desse cenário, a estação Cocotá surge como uma solução viável e sustentável para o transporte de passageiros. O terminal, que já foi amplamente utilizado no passado, tem o potencial de ser revitalizado e expandido, contribuindo significativamente para a redução do número de veículos que circulam pela Ilha do Governador. Com a modernização das embarcações e a frequência ampliada das viagens, o transporte aquaviário pode se tornar uma alternativa atraente, com tempos de deslocamento competitivos em relação aos modais terrestres, além de proporcionar maior conforto e segurança aos usuários.

    Redução do Tempo de Deslocamento e Melhora da Qualidade de Vida

    A grande vantagem da estação Cocotá é a capacidade de oferecer uma rota direta e rápida para o centro da cidade e outras regiões importantes do Rio de Janeiro. Diferentemente das rotas de ônibus e automóveis, que estão sujeitas a congestionamentos constantes, o transporte aquaviário oferece uma viagem mais previsível e menos suscetível a atrasos causados pelo tráfego. Isso pode significar uma redução considerável no tempo de deslocamento para milhares de moradores da Ilha do Governador que precisam acessar áreas como o centro do Rio ou a Zona Sul para trabalhar ou estudar.

    Além disso, a utilização da estação Cocotá pode impactar positivamente na qualidade de vida dos moradores. Com viagens mais rápidas e confortáveis, os passageiros podem evitar o estresse do trânsito e desfrutar de um trajeto tranquilo pelas águas da Baía de Guanabara. Essa mudança também contribui para a diminuição dos níveis de poluição, uma vez que o transporte aquaviário é mais sustentável do que os modais terrestres movidos a combustíveis fósseis.

    Impacto Ambiental e Sustentabilidade

    A poluição gerada pelo trânsito de veículos na Ilha do Governador é uma preocupação crescente. A região, que abriga importantes áreas residenciais, comerciais e o Aeroporto Internacional Tom Jobim, enfrenta diariamente os efeitos nocivos das emissões de veículos. A situação é agravada nos horários de pico, quando o tráfego na Linha Vermelha, uma das principais vias de acesso e saída da Ilha, se torna quase intransitável. O transporte aquaviário, por sua vez, tem um impacto ambiental significativamente menor, uma vez que as embarcações modernas emitem menos poluentes e ajudam a aliviar a pressão sobre o sistema viário.

    A revitalização da estação Cocotá e o incremento no uso do transporte aquaviário também são medidas alinhadas com os esforços globais de sustentabilidade. Promover a utilização de um modal de transporte menos poluente é uma estratégia eficiente para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e melhorar a qualidade do ar nas áreas urbanas. Além disso, ao diminuir o número de veículos particulares nas ruas, o transporte aquaviário também contribui para a redução da poluição sonora, um fator que tem grande impacto na saúde e no bem-estar da população.

    Incentivo ao Uso do Transporte Aquaviário e Planejamento Urbano

    A implementação de um sistema de transporte aquaviário eficiente na estação Cocotá também está diretamente relacionada ao planejamento urbano e à melhoria da infraestrutura local. Como resultado da nova licitação, o terminal poderá receber investimentos para modernizar suas instalações, aumentando sua capacidade de atender a um número maior de passageiros com maior regularidade e qualidade de serviço. Isso inclui a construção de novas áreas de embarque e desembarque, a melhoria na acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida e a integração mais eficiente com outros modais de transporte, como ônibus e bicicletas.

    Além disso, o incentivo ao uso do transporte aquaviário na Ilha do Governador pode desafogar o sistema viário, abrindo caminho para um planejamento urbano mais sustentável e focado na mobilidade integrada. Ao diminuir o fluxo de veículos particulares, a Ilha pode ganhar novos espaços públicos, com mais áreas verdes e menos ruas dedicadas ao tráfego intenso. Esse tipo de mudança estrutural é essencial para cidades que buscam melhorar a qualidade de vida de seus moradores e garantir um desenvolvimento urbano sustentável.

    Benefícios Econômicos e Mobilidade

    O desenvolvimento da estação Cocotá como um importante terminal de transporte também traz benefícios econômicos. A melhoria da mobilidade urbana tem um impacto direto no aumento da produtividade, já que trabalhadores podem se deslocar mais rapidamente e de forma menos desgastante. Além disso, o transporte aquaviário pode atrair turistas e incentivar atividades econômicas na região, como o comércio local e os serviços voltados ao turismo e lazer. A Ilha do Governador, com suas belas paisagens e proximidade com o centro do Rio de Janeiro, tem grande potencial para se tornar um ponto turístico mais acessível, beneficiando diretamente a economia local.

    Com a nova concessão, o terminal Cocotá pode se tornar uma peça-chave na estratégia de mobilidade urbana do Rio de Janeiro, oferecendo uma alternativa eficiente e sustentável ao congestionado sistema viário da cidade. Para que isso ocorra, é fundamental que os investimentos em infraestrutura e as melhorias no serviço sejam implementados de forma eficaz, com um planejamento que considere as necessidades da população e os desafios ambientais e logísticos da região.

    Conclusão

    A estação Cocotá, na Ilha do Governador, tem o potencial de se consolidar como um dos principais terminais de transporte aquaviário do Rio de Janeiro, oferecendo uma alternativa viável e eficiente aos atuais modos de transporte, que são marcados por congestionamentos, longos tempos de viagem e altos níveis de poluição. A revitalização desse terminal e a modernização das embarcações, conforme previsto na recente licitação pública, podem proporcionar um serviço de qualidade, que beneficia não só os moradores da Ilha, mas todos os usuários do transporte público na cidade.

    Com a implementação de um sistema integrado e sustentável, o transporte aquaviário pode desempenhar um papel crucial na redução do uso de veículos particulares, na diminuição dos níveis de poluição e no alívio dos congestionamentos, contribuindo para uma mobilidade urbana mais eficiente e para a melhoria da qualidade de vida dos habitantes da Ilha do Governador e das regiões vizinhas.

  • Trens pendolinos: do design à sustentabilidade

    Publicado no site Amantes da FerroviaCássio Cristian

    Em post anterior, apresentamos a proposta de implantar o Pendolino no trecho abandonado pela FCA, no Estado do Rio de Janeiro. Neste post, apresentamos mais informações sobre essa tecnologia, que pode ser revolucionária para o Estado do Rio de Janeiro.

    Pendolino é um trem basculante de alta velocidade fabricado pela Alstom Ferroviaria. Viaja a velocidades de até 250 km/h nos trilhos convencionais, eliminando a necessidade de ferrovias especialmente projetadas.

    O trem de alta velocidade é chamado de “Pendolino” – “pequeno pêndulo” em italiano – devido ao seu mecanismo de inclinação nas curvas.

    A tecnologia foi originalmente desenvolvida pela Fiat Ferroviaria há mais de 40 anos. A Alstom a herdou após a aquisição da Fiat Ferroviaria em 2000. Desde então, o trem é fabricado pela Alstom em Savigliano, na Itália.

    Atualmente, existem aproximadamente 400 trens Pendolino operando em 11 países da Europa, incluindo Itália, Portugal, Eslovênia, Finlândia, Rússia, República Tcheca, Reino Unido, Suíça, China, Alemanha e Romênia. 

    Do primeiro protótipo à segunda geração do ETR 460

    O primeiro protótipo em funcionamento foi desenvolvido e lançado pela Fiat Ferroviaria em 1969. Conhecido como ETRY 0160, possuía uma carroceria basculante elétrica e foi o primeiro a receber o nome Pendolino. O protótipo foi seguido pela construção de mais duas unidades da unidade elétrica múltipla – ETR 401.

    A primeira unidade foi lançada para serviço público em 1976 na rota Roma-Ancona, operada pela Italian State Railways.

    A segunda unidade foi entregue à operadora ferroviária espanhola Renfe para operar em sua bitola larga. O ETR 401 tinha quatro carros, podendo viajar a velocidades de até 295 km/h.

    A Fiat adquiriu patentes para a tecnologia de inclinação usada no projeto Advanced Passenger Train (APT) do Reino Unido em 1982. No entanto, o APT foi um projeto experimental malsucedido desenvolvido pela British Rail.

    Depois disso, a Fiat fez várias melhorias em relação à tecnologia original e introduziu uma avançada ETR 450 de primeira geração na rota Roma-Milão. Foi o primeiro Pendolino a entrar em serviço regular.

    Era um trem de nove vagões que atingiu uma velocidade máxima de 250 km/h, fazendo a rota entre Roma e Milão em quatro horas. Além disso, esse modelo pode inclinar em um ângulo de 13°.

    A segunda geração do ETR 460 foi inserida no mercado em 1993. Foi projetada pela empresa de design Giorgetto Giugiaro. Ele teve várias melhorias em relação à primeira geração, como o potente motor assíncrono CA, instalação de pistões de ação anti-inclinação ao longo do trem e conexão entre bogie – constitui um conjunto de rodas, rolamentos, molas, eixos, cilindros de freio, barras estabilizadoras. O ângulo de inclinação foi reduzido para 8° para oferecer mais segurança e conforto.

    O ETR 460 mantém uma baixa carga de eixo de 14,5 t/eixo que permite ao trem rodar 35% mais rápido nas curvas em comparação aos trens convencionais. Outras versões avançadas do ETR 460 são o ETR 470 desenvolvido para a empresa ítalo-suíça Cisalpino e o ETR 480 para a Trenitalia.

    ETR 600 e ETR 610

    Em 2006, após várias melhorias, a Alstom lançou o novo Pendolino ETR 600 e ETR 610. Os trens foram desenvolvidos para a Trenitalia e a Swiss Federal Railways (SBB). Ambas as variantes são mais confiáveis ​​do que as versões anteriores, pois possuem unidades de tração melhoradas, com componentes e equipamentos de alta tecnologia.

    O ETR 610 é mais avançado que o ETR 600, pois suporta o sistema de tensão e sinalização usado pela Suíça e Alemanha.

    Novos modelos: alta tecnologia e sustentabilidade

    Os novos trens Pendolino estão disponíveis em duas versões. Os trens com uma largura da carroceria de 2.830 mm são adequados para a faixa UIC (1.400 mm). Eles operam em temperaturas variando de -25°C a 45°C. Os trens com uma largura da carroceria de 3.200 mm são fabricados para trilhos largos (1.500 mm). Eles podem operar em temperaturas inferiores a -40°C.

    Os trens têm entre quatro a nove vagões, acomodando 200 a 600 passageiros. Cada carro tem 26,2 m de comprimento, 2,83 m de largura e pesa 387 toneladas. Também possui sistemas de aquecimento, ventilação e ar-condicionado (HVAC).

    Os vagões são construídos sob medida e equipados em conformidade com o Sistema Europeu de Gerenciamento de Tráfego Ferroviário (ERTMS) para operacionalidade transfronteiriça.

    Os trens usam a tecnologia Tiltronix e apresentam truque de inclinação hidráulico. As hastes de inclinação instaladas nos bogies ativam esse movimento. As forças das rodas do trem são minimizadas pela redução de massas suspensas. A carroceria fica centralizada com o uso do sistema de suspensão a ar lateral ativo.

    Os últimos trens Pendolino têm pantógrafos inclinados fixados no teto dos vagões. Sempre que o trem se inclina, o carro desliza para o lado devido a um sistema hidráulico de contra-translação ativo, que permite que o pantógrafo permaneça centralizado.

    Os novos trens Pendolino são declarados 95% recicláveis. Os sistemas de freio elétrico economizam até 8% da energia consumida. Segundo a Alstom, 97% da energia é reciclada e devolvida ao sistema de catenária (caminho de ferro).

    Além disso, o isolamento acústico sob a carroceria e o design aerodinâmico otimizado reduzem a penetração do som por meio do teto. Uma vibração do sistema de descarga do amortecedor sob as rodas também contribui para diminuir a poluição sonora.

    Gostou do assunto? Quer saber mais sobre a mecânica dos trens? Deixe seu comentário! E para quem tem dúvidas sobre alguns termos ferroviários, disponibilizamos um glossário para você ficar por dentro de tudo.

  • Sustentabilidade e Eficiência com Pendolinos no Rio de Janeiro

    Os trens Pendolino podem ser uma alternativa promissora para reativar trechos abandonados da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA) no estado do Rio de Janeiro. Projetados para operar eficientemente em trilhos com curvas acentuadas e infraestrutura ferroviária convencional, esses trens podem ajudar a modernizar as linhas abandonadas, trazendo benefícios de velocidade, conforto e sustentabilidade.

    Vantagens dos Pendolinos nos Trechos Abandonados da FCA

    1. Aproveitamento da Infraestrutura Existente: Os trechos abandonados da FCA, caracterizados por curvas fechadas e falta de manutenção, poderiam ser reativados sem a necessidade de grandes mudanças estruturais. A tecnologia de inclinação dos Pendolinos permite que eles operem de maneira eficiente em linhas convencionais, mesmo com muitas curvas. Isso possibilita a reativação das linhas sem a necessidade de criar novas rotas ou corrigir completamente o traçado original.
    2. Sustentabilidade e Eficiência Energética: A eficiência energética dos Pendolinos, com sistemas de freios regenerativos e motores otimizados, torna-os adequados para regiões onde o tráfego é menos intenso e os custos de operação precisam ser baixos. A sustentabilidade da operação se alinha com os objetivos de reduzir a pegada de carbono e modernizar o transporte no Rio de Janeiro.
    3. Atração de Passageiros e Reativação Regional: A reativação dos trechos abandonados com trens modernos como os Pendolinos poderia incentivar o retorno de passageiros a essas rotas. A qualidade de serviço, com maior conforto e menor tempo de viagem, ajudaria a revitalizar áreas que foram prejudicadas pela falta de transporte ferroviário, promovendo o desenvolvimento econômico e social.

    Desafios da Implementação

    1. Adaptação para a Bitola Métrica: A FCA utiliza majoritariamente bitola métrica, o que exigiria adaptações nos trens Pendolino, originalmente projetados para bitola padrão. Essa adaptação pode ser tecnicamente viável, mas envolve custos e desafios adicionais em termos de engenharia e manutenção.
    2. Infraestrutura Degradada: Embora os Pendolinos sejam capazes de operar em linhas convencionais, os trechos abandonados podem necessitar de investimentos significativos em modernização para garantir a segurança e viabilidade do serviço. A reativação desses trechos exigirá melhorias em trilhos, estações e sistemas de sinalização.
    3. Custo Inicial Elevado: O custo de aquisição e implementação dos trens Pendolino em linhas abandonadas seria elevado, especialmente devido às adaptações necessárias para bitola métrica e modernização da infraestrutura. Contudo, a longo prazo, os benefícios de velocidade, eficiência e sustentabilidade poderiam compensar o investimento.

    Casos de Sucesso Internacional

    Os trens Pendolino já são utilizados com sucesso em vários países da Europa:

    • Itália: O sistema ferroviário italiano utiliza amplamente os Pendolinos em suas linhas de alta velocidade.
    • Reino Unido: A Virgin Trains opera Pendolinos na West Coast Main Line, com boa aceitação devido à sua capacidade de manter altas velocidades em linhas com curvas acentuadas.
    • Finlândia: Utilizam trens Pendolino adaptados para operar em condições extremas de frio e neve, mostrando a versatilidade da tecnologia.
    • Espanha e Polônia: Esses países também adotaram o Pendolino, melhorando a mobilidade entre grandes cidades e áreas regionais.

    Conclusão

    A reativação dos trechos abandonados da FCA no Rio de Janeiro, com o uso de trens Pendolino, apresenta-se como uma solução inovadora e viável, desde que acompanhada de investimentos adequados em infraestrutura e adaptação tecnológica. O uso dessa tecnologia pode não apenas revitalizar essas linhas, mas também trazer ganhos em termos de sustentabilidade, eficiência e mobilidade regional. Com a devida implementação, o modelo Pendolino poderia transformar o transporte ferroviário em áreas atualmente desassistidas, oferecendo um serviço de alta qualidade e contribuindo para o desenvolvimento econômico local.

    4o

  • Estradas que carregam veículos elétricos – estado atual do desenvolvimento

    A Noruega, reconhecida como um dos países mais avançados no uso de veículos elétricos (VEs), deu mais um passo rumo à inovação e à sustentabilidade com a inauguração da primeira estrada de carregamento sem fio do mundo. Em Trondheim, um trecho de 100 metros desenvolvido pela empresa israelense Electreon Wireless está permitindo que veículos elétricos carreguem suas baterias enquanto estão em movimento, uma tecnologia que pode revolucionar o transporte urbano e rodoviário.

    A Tecnologia por Trás da Estrada de Carregamento Sem Fio

    Essa inovação em Trondheim utiliza uma tecnologia de carregamento por indução. Bobinas de cobre são embutidas na superfície da estrada e, quando ativadas, geram um campo magnético que transfere energia para um receptor instalado na parte inferior dos veículos elétricos. O sistema é projetado para ser eficiente e seguro, fornecendo energia em tempo real para os veículos enquanto eles transitam pela via.

    A grande vantagem desse sistema é que ele permite que os veículos elétricos carreguem suas baterias em movimento, eliminando a necessidade de paradas frequentes em estações de carregamento. Isso não apenas aumenta a eficiência e a conveniência para os motoristas, mas também tem o potencial de reduzir significativamente o tamanho das baterias necessárias nos veículos elétricos, uma vez que eles podem ser reabastecidos continuamente ao longo da viagem.

    O Projeto em Trondheim

    A estrada de 100 metros em Trondheim é parte de um projeto piloto para testar a viabilidade do carregamento sem fio em ambientes urbanos. Esse trecho está sendo utilizado principalmente por táxis elétricos, já que a cidade planeja converter toda a sua frota de táxis para veículos elétricos até 2025. O objetivo é demonstrar que o carregamento em movimento pode ser uma solução eficaz para manter esses veículos operacionais sem a necessidade de longos períodos de recarga estacionária.

    A Electreon Wireless, a empresa responsável pelo desenvolvimento da tecnologia, está colaborando com as autoridades de transporte da Noruega para expandir o uso dessa infraestrutura. O projeto é considerado um avanço não apenas no campo da mobilidade elétrica, mas também no combate às mudanças climáticas, já que a eletrificação do transporte público é uma das principais estratégias do país para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa.

    Benefícios Potenciais da Estrada de Carregamento Sem Fio

    1. Redução do tempo de inatividade dos veículos elétricos: Com a possibilidade de carregar as baterias em movimento, os veículos podem permanecer em operação por mais tempo, sem a necessidade de paradas prolongadas para recarga.
    2. Diminuição do tamanho das baterias: A necessidade de baterias grandes para garantir uma autonomia estendida poderia ser significativamente reduzida, já que o carregamento em movimento possibilita uma recarga constante.
    3. Sustentabilidade: O uso de veículos elétricos já representa uma solução mais ecológica em relação aos veículos movidos a combustíveis fósseis. A introdução de estradas de carregamento sem fio pode acelerar ainda mais a transição para uma mobilidade sustentável.
    4. Custo-benefício a longo prazo: Embora a instalação dessas infraestruturas envolva altos custos iniciais, o retorno sobre o investimento a longo prazo pode ser expressivo, especialmente considerando a redução na necessidade de infraestrutura de carregamento estacionária e na dependência de baterias grandes e caras.

    Desafios e Futuro da Tecnologia

    Embora a estrada de carregamento sem fio em Trondheim represente um avanço significativo, ainda há desafios a serem superados para que essa tecnologia se torne amplamente adotada. Entre os principais desafios estão o custo de implementação em larga escala, a necessidade de padronização para garantir a compatibilidade com diferentes modelos de veículos e a durabilidade das bobinas e outros componentes sob o desgaste constante do tráfego rodoviário.

    Entretanto, a Noruega, com seu histórico de inovação em energia limpa e políticas de incentivo à eletrificação do transporte, está na vanguarda dessa transição. Se o projeto em Trondheim for bem-sucedido, ele poderá servir como modelo para outras cidades ao redor do mundo que buscam alternativas mais sustentáveis e eficientes para o transporte elétrico.

    Outras experiências no Mundo

    Além da experiência inovadora em Trondheim, na Noruega, o conceito de estradas que carregam veículos elétricos em movimento está ganhando atenção em várias partes do mundo. Projetos similares estão em andamento nos Estados Unidos, Europa e Ásia, com diferentes abordagens tecnológicas e estágios de desenvolvimento. Aqui estão alguns dos principais exemplos:

    Estados Unidos: Indiana

    Nos EUA, o estado de Indiana está testando uma tecnologia de carregamento por indução semelhante à utilizada na Noruega. O projeto é uma parceria entre a Purdue University e a empresa Magment, especializada em infraestrutura de mobilidade elétrica. A estrada utiliza uma tecnologia de concreto magnetizado que permite o carregamento de veículos elétricos em movimento.

    Atualmente, o projeto está em fase de desenvolvimento e testes, com uma pista experimental de 400 metros sendo construída para avaliar a eficiência do carregamento sem fio em diversas condições. Se for bem-sucedido, o estado planeja expandir essa infraestrutura para rodovias mais movimentadas, com o objetivo de promover uma rede de mobilidade elétrica mais ampla e eficiente.

    Suécia: Estrada E16

    Na Suécia, um projeto de estrada elétrica foi implementado na rodovia E16, perto da cidade de Gävle. Ao contrário do sistema de indução, essa estrada utiliza um sistema de catenária (semelhante aos usados em trens) que permite que caminhões elétricos se conectem a linhas aéreas para receber eletricidade enquanto estão em movimento.

    Essa é uma das primeiras estradas elétricas em operação no mundo e foi projetada para reduzir as emissões de caminhões pesados em longas distâncias. O projeto, que é uma parceria público-privada envolvendo a Scania e a Siemens, está em fase de testes e operação, com planos de expandir essa infraestrutura para mais rodovias suecas.

    Alemanha: Autobahn Elétrica A5

    Seguindo uma abordagem semelhante à da Suécia, a Alemanha desenvolveu um projeto piloto em um trecho de 5 km da Autobahn A5, que utiliza tecnologia de catenária para permitir que caminhões híbridos elétricos se conectem a cabos aéreos. Esse sistema, desenvolvido pela Siemens, já está em operação e tem como objetivo fornecer uma alternativa mais limpa para o transporte de cargas pesadas.

    A Alemanha planeja expandir esse sistema para outras rodovias do país como parte de sua estratégia de reduzir as emissões de carbono no transporte rodoviário. Atualmente, o projeto está em fase de testes e monitoramento, mas com perspectivas de ampliação em um futuro próximo.

    Itália: Estrada Elétrica em Brescia

    Na Itália, a cidade de Brescia também está experimentando uma estrada de carregamento sem fio, desenvolvida pela Electreon, a mesma empresa responsável pelo projeto de Trondheim. Esse projeto italiano foca no transporte público, particularmente ônibus elétricos, que podem carregar suas baterias enquanto circulam pela cidade.

    Atualmente, o sistema está em fase de teste, com um trecho curto em operação para ônibus elétricos. A expectativa é que, se os testes forem bem-sucedidos, a tecnologia possa ser expandida para outras áreas urbanas, promovendo uma transição mais sustentável para o transporte público.

    Israel: Projeto Electreon em Tel Aviv

    Em Tel Aviv, Israel, a Electreon Wireless também está testando uma estrada de carregamento sem fio para ônibus elétricos. O projeto foi implementado em um trecho de 1 km na rota entre a Universidade de Tel Aviv e a estação ferroviária da cidade.

    Assim como na Noruega, o sistema de Tel Aviv utiliza carregamento por indução, com bobinas instaladas sob a superfície da estrada. A tecnologia está em fase de testes e, se demonstrar eficácia e eficiência, será expandida para outras rotas de transporte público em Tel Aviv.

    China: Estradas Solares em Jinan

    Na China, o conceito de estradas de carregamento elétrico está sendo explorado com uma abordagem adicional: estradas solares. Na cidade de Jinan, um trecho de estrada de 1 km foi pavimentado com painéis solares que alimentam uma infraestrutura de carregamento indutivo para veículos elétricos.

    Esse projeto, que está em fase de desenvolvimento, é um dos primeiros a combinar energia solar e carregamento sem fio, com o objetivo de tornar o transporte urbano mais sustentável. Embora ainda esteja em fase experimental, a China planeja expandir o uso dessa tecnologia para outras regiões do país.

    Conclusão

    A ideia de estradas que carregam veículos elétricos em movimento é uma inovação que está sendo testada e implementada em várias partes do mundo, com diferentes tecnologias em estágios variados de desenvolvimento. Nos Estados Unidos, a pesquisa está em fase de testes iniciais, enquanto na Europa, países como a Suécia e a Alemanha já têm trechos operacionais. Na Ásia, China e Israel estão liderando iniciativas com soluções que combinam diferentes tecnologias, como carregamento indutivo e energia solar.

    Essas iniciativas representam um avanço significativo no setor de mobilidade elétrica e podem, no futuro, reduzir ainda mais a dependência de estações de recarga estáticas, tornando o transporte mais eficiente e sustentável.

  • Autobahn 5 Elétrica: Inovação e Sustentabilidade nas Estradas do Futuro

    A rodovia Autobahn A5, localizada nas proximidades de Frankfurt, foi projetada para permitir a recarga de caminhões elétricos enquanto estão em movimento. Essa iniciativa faz parte de um esforço do governo para mitigar as emissões de poluentes no transporte de cargas, buscando alternativas mais sustentáveis para o setor.

    A extensão de 5 km da Autobahn A5 em Hessen contará com cabos aéreos instalados em ambos os lados da pista, semelhantes aos utilizados em sistemas de bonde. Caminhões equipados com motores elétricos terão a capacidade de se conectar a esses cabos, possibilitando a recarga das baterias durante o trajeto.

    O Ministério do Meio Ambiente da Alemanha está conduzindo uma fase de testes com cinco empresas de transporte, investindo 50 milhões de euros em um projeto que inclui também expansões em Schleswig-Holstein e Baden-Württemberg.

    Nos últimos anos, o aumento no transporte de cargas contribuiu significativamente para a emissão de gases de efeito estufa. Conforme relatado pelo ministério, a escolha da A5 para este projeto é estratégica, uma vez que essa estrada suporta um tráfego elevado, com mais de 130.000 veículos diários, incluindo aproximadamente 13.000 caminhões.

    • Fluxo de Tráfego na A5:
      • Total de veículos: 130.000/dia
      • Caminhões: 13.000/dia

    Um representante do ministério observou que, se o sistema demonstrar ser eficaz na A5, sua implementação poderia ser viável em outras rodovias. Embora a reforma das principais estradas não seja uma necessidade imediata, estimativas indicam que uma extensão de 1.000 quilômetros poderia atender à demanda de transporte de mercadorias.

    O custo estimado para essa transformação é de cerca de 1 milhão de euros por quilômetro, totalizando aproximadamente 1 bilhão de euros.

    Avanços Tecnológicos

    A implementação da Rodovia Autobahn A5 na Alemanha destaca significativos avanços tecnológicos no campo da mobilidade elétrica. Este projeto inovador visa fornecer energia elétrica a veículos em movimento, especialmente caminhões elétricos, através de uma infraestrutura de recarga dinâmica.

    As melhorias tecnológicas nessa área incluem:

    • Recarregamento em Movimento: Esta tecnologia permite que veículos elétricos sejam recarregados enquanto estão em trânsito, eliminando a necessidade de paradas frequentes.
    • Redução de Emissões: Com a transição para veículos elétricos, espera-se uma considerável diminuição na emissão de poluentes, contribuindo para um transporte mais sustentável.
    • Infraestrutura Inteligente: A criação de rodovias inteligentes com sensores e sistemas de monitoramento facilita a integração de veículos elétricos na rede viária.

    Além disso, a evolução contínua dos carros elétricos é impulsionada por inovações em baterias, sistemas de controle e tecnologias de conectividade. Essas inovações estão moldando um futuro mais sustentável para a mobilidade urbana e interurbana.

    Sustentabilidade e Impacto Ambiental

    A mobilidade elétrica, especialmente através de veículos como o “autobahn 5 elétrica”, apresenta diversas vantagens ambientais. Esses veículos são projetados para oferecer alternativas mais limpas em comparação aos automóveis movidos a combustíveis fósseis. Abaixo estão alguns fatores essenciais que destacam seu impacto ambiental:

    • Redução de Emissões de Gases: Carros elétricos não emitem gases poluentes durante a operação, o que contribui para a melhoria da qualidade do ar em áreas urbanas.
    • Eficiência Energética: Os veículos elétricos têm uma maior eficiência na conversão de energia em comparação com os motores de combustão interna. Isso resulta em menor consumo de energia.
    • Uso de Energias Renováveis: A possibilidade de carregar veículos elétricos com energia proveniente de fontes renováveis, como solar ou eólica, amplifica seu potencial sustentável.

    Desafios a Serem Considerados

    Apesar dos benefícios, existem desafios associados à mobilidade elétrica:

    • Infraestrutura de Carregamento: A expansão da rede de carregadores é crucial para apoiar o crescimento da frota elétrica.
    • Ciclo de Vida das Baterias: A produção e o descarte das baterias permanecem uma preocupação ambiental, exigindo uma gestão adequada para minimizar impactos negativos.

    Ao considerar a implementação de veículos elétricos, é vital abordar tanto os benefícios quanto os desafios para promover um futuro de transporte mais sustentável.

    Políticas de Mobilidade

    A Política Nacional de Mobilidade Elétrica estabelece diretrizes para a implementação de uma infraestrutura adequada. Isso inclui:

    • Instalação de Ponto de Recarga: A criação de pontos de recarga em áreas urbanas e em rodovias é essencial para garantir a praticidade do uso de veículos elétricos.
    • Projetos de Pesquisa e Desenvolvimento: O incentivo ao desenvolvimento de tecnologias para veículos elétricos é fundamental para melhorar a eficiência e a aceitação dos consumidores.

    Legislação e Regulamentação

    Legislações específicas têm sido propostas para regular o mercado de veículos elétricos:

    • Leis de Incentivo: Projetos de lei como o PL 2156/21 buscam criar um ambiente favorável à mobilidade elétrica, facilitando a reintegração de tecnologias inovadoras no mercado.
    • Normas de Emissão: Regulamentações que limitam as emissões de poluentes incentivam empresas a investirem em alternativas elétricas.

    Conclusão e Perspectivas Futuras:

    A consolidação do mercado de veículos elétricos no Brasil depende da eficácia das políticas e incentivos governamentais, refletindo um compromisso com a sustentabilidade no setor automotivo. Embora a adoção de carros elétricos enfrente desafios, como a expansão da infraestrutura de carregamento, a redução de custos e a melhoria da autonomia das baterias, o país apresenta um grande potencial para o crescimento dessa indústria.

    Com o avanço da tecnologia, espera-se um aumento na oferta de modelos elétricos, apoio governamental mais robusto, e maior integração da mobilidade elétrica nas cidades, visando à redução das emissões de carbono. Esses fatores indicam que, apesar dos desafios, o futuro da mobilidade elétrica no Brasil é promissor, alinhado com a tendência global de sustentabilidade e inovação.

    A percepção pública está mudando, com uma crescente aceitação de veículos elétricos motivada por preocupações ambientais e economia operacional. Além disso, as empresas estão adotando veículos elétricos em suas frotas, o que, aliado à percepção pública positiva, pode acelerar ainda mais o crescimento do setor no Brasil.

    Publicado no site da Brudam, em 26/08/2024

  • O exemplo das cidades que passaram a oferecer transporte público gratuito
    • Peter Yeung
    • Role,BBC Worklife
    • 15 julho 2021

    Em setembro de 2018, a cidade de Dunquerque, no norte da França, passou por uma transformação silenciosamente radical: tornou seu sistema de transporte público gratuito.

    Sob a liderança do prefeito Patrice Vergriete, que tem doutorado em planejamento urbano, a cidade se tornou a maior da França a abolir as tarifas das redes de transporte locais, oferecendo aos 200 mil habitantes da área metropolitana acesso gratuito a 18 rotas de ônibus.

    A política “revitalizou” o antigo porto industrial e ajudou a reduzir as emissões de carbono, de acordo com um estudo encomendado pela cidade e realizado pela entidade independente Observatório de Cidades com Transporte Gratuito.

    Os pesquisadores descobriram que após a mudança, que foi financiada por um pequeno aumento no imposto sobre empresas, o número de passageiros aumentou em 60% durante a semana e dobrou nos fins de semana — com quase 50 mil viagens feitas por dia.

    Dos novos usuários, 48% afirmaram usar regularmente a rede de transporte público ao invés de carros.

    “É um sucesso evidente, mesmo que esteja na fase inicial”, diz Arnaud Passalacqua, professor da Escola de Planejamento Urbano de Paris e um dos pesquisadores do estudo.

    “É um sinal de que o transporte público gratuito poderia funcionar em uma escala maior.”

    Mas o debate sobre se uma cidade grande, como Paris ou Londres, poderia replicar o modelo de tarifa gratuita de Dunquerque divide opiniões.

    Os defensores da ideia argumentam que tornar o transporte público gratuito reduziria as emissões de carbono e a poluição do ar, aliviaria as pressões sobre as famílias desfavorecidas e, diante das falhas expostas pela pandemia do atual sistema baseado em tarifas, criaria um modelo de financiamento mais resiliente para o futuro.

    Ônibus em Dunquerque
    Legenda da foto,Em Dunquerque, transporte público gratuito revitalizou centro da cidade, diz estudo

    Mas os críticos protestam contra a ideia de abolir as tarifas, apontando os grandes desafios de custo e infraestrutura envolvidos na transferência de uma política testada em pequenas cidades para grandes centros metropolitanos.

    Então, será que vale a pena para as grandes cidades incorporar o transporte público gratuito?

    ‘Nova onda’

    A ideia de transporte público gratuito não é de forma alguma nova.

    Na França, já é uma realidade para centenas de milhares de pessoas em mais de 30 municípios, como no vizinho de Dunquerque, Calais, no subúrbio marselhês de Aubagne e em Colombiers, subúrbio de Toulouse que em 1971 realizou a primeira experiência de acabar com as tarifas na Europa.

    Em 2013, a cidade estoniana de Tallinn se tornou a primeira capital da União Europeia (UE) a implementar a mudança e, no ano passado, Luxemburgo, com sua população de 626 mil habitantes, se consagrou como o primeiro país a oferecer transporte público totalmente gratuito.

    Agora há uma “nova onda” de apoio à ideia do transporte gratuito na França, “baseada na criação de redes (de transporte) mais sustentáveis e ecológicas ​​que ajudem as comunidades mais necessitadas”, diz Passalacqua.

    “Por causa disso, cidades maiores estão começando a implementá-lo.”

    Em Paris, o transporte público gratuito para menores de 18 anos foi introduzido no ano letivo de 2020; Estrasburgo, a nona maior cidade da França, implementará a mesma política em setembro.

    Desde o mês passado, os quase um milhão de habitantes da região metropolitana de Nantes viajam gratuitamente nos finais de semana.

    E a região da Occitânia, no sul da França, onde vivem cerca de seis milhões de pessoas, introduziu uma política segundo a qual jovens de 18 a 26 anos que pegam o trem pelo menos 30 vezes por mês não precisam pagar, com o duplo objetivo de ajudar os trabalhadores mais jovens e reduzir as emissões de carbono.

    Alain Jund, vice-presidente de política de mobilidade, transporte, viagens e ciclismo da Prefeitura de Estrasburgo, diz que parte do motivo da mudança na cidade é a crise climática — a ideia de que 80 mil jovens não precisarão mais de carona dos pais.

    Trem em Luxemburgo
    Legenda da foto,Luxemburgo tornou seu sistema de transporte gratuito — mas sua população é muito menor do que a de Paris

    “Em Estrasburgo, os níveis de poluição são muito altos e isso está relacionado ao tráfego de automóveis”, diz ele.

    “Também é um problema de saúde pública. Estimamos que 500 pessoas [em Estrasburgo] morram por ano devido à poluição.”

    Mas as razões socioeconômicas também são um fator importante na política de Estrasburgo, cujo custo anual estimado de 6 milhões a 8 milhões de euros será coberto pelo orçamento geral do município.

    As famílias com dois filhos economizariam 550 euros por ano no custo da passagem, diz a prefeitura, oferecendo economias significativas que ajudariam famílias de baixa renda.

    “Estamos em uma crise econômica — e não apenas por causa da pandemia”, explica Jund.

    “Esta é uma medida de solidariedade e proteção do poder de compra. Mas é também uma questão de proporcionar igualdade territorial entre quem está no centro da cidade e aqueles que estão nas zonas rurais, e proteger o direito à mobilidade — praticar esportes, ir ao cinema e circular livremente. Acreditamos que isso é importante.”

    ‘Preço a pagar’

    De Dunquerque a Tallinn e Luxemburgo, no entanto, os experimentos com transporte público gratuito têm sido em uma escala relativamente pequena, o que torna muito mais fácil de gerenciar do que em uma cidade grande.

    Mas os defensores da proposta, estimulados pelo apoio a iniciativas que combatem a crise climática, dizem que agora é a hora de dar mais um passo adiante.

    Audrey Pulvar, adjunta da prefeita de Paris, Anne Hidalgo, fez do transporte público gratuito uma promessa fundamental em sua campanha para presidente da Île-de-France — região com 12 milhões de habitantes que abrange oito departamentos franceses, incluindo Paris — nas eleições regionais.

    De acordo com a proposta de Pulvar, a gratuidade do transporte seria aplicada gradualmente até 2026, primeiro a menores de 18 anos, estudantes e desempregados — depois, a política seria estendida a todos os moradores nos fins de semana e, por fim, seria oferecida todos os dias.

    “Precisamos mudar nosso modo de vida”, diz Pulvar, que estima que a política pode custar 3 bilhões de euros por ano.

    De acordo com seus planos, esse déficit seria coberto por impostos sobre os veículos mais poluentes e empresas de comércio eletrônico como a Amazon, com base no imposto pioneiro da França sobre as grandes companhias de tecnologia.

    A isso se somariam os “custos evitados” de acidentes de carro, poluição e horas de trabalho perdidas por causa do trânsito, que ela diz custar à região 10 bilhões de euros por ano.

    Londres.
    Legenda da foto,Cidades grandes como Londres costumam ter um mix complicado de provedores de transporte e modelos de financiamento

    Mas mesmo que haja um apoio crescente à ideia, nem todo mundo está disposto a abolir as tarifas de transporte.

    Charles-Éric Lemaignen, vice-presidente do departamento nacional de transporte da França (GART), ressalta que “embora seja gratuito, é apenas para o usuário, ainda haverá um preço a pagar”.

    Lemaignen argumenta que qualquer plano deve considerar se o dinheiro poderia ser melhor gasto em outra área, se há capacidade suficiente para fazer frente ao inevitável aumento no uso da rede de transporte e quão importante as vendas de passagem são para financiá-la.

    “Em Lyon [a segunda maior cidade da França], a receita das passagens compradas por passageiros é muito maior do que em Dunquerque”, diz ele.

    “Isso terá um sério impacto na viabilidade de um plano, porque é um golpe maior para as receitas.”

    Estas preocupações ecoam as conclusões de um estudo encomendado em 2018 por Valérie Pécresse, a então presidente de direita da Île-de-France, sobre a viabilidade de abolir as tarifas na região.

    A pesquisa constatou que, embora a política levasse a um aumento de 6% a 10% no número de passageiros, custaria entre 2,2 e 3,3 bilhões de euros, e a qualidade do serviço da rede seria reduzida.

    Além disso, o uso de carros cairia apenas 2%, e o impacto na igualdade social seria limitado porque mais de um milhão de pessoas na região já se beneficiam de viagens gratuitas ou tarifas reduzidas.

    “A pandemia dificultou ainda mais o financiamento por causa dos orçamentos apertados”, acrescenta Lemaignen.

    No entanto, os defensores da proposta acreditam que os custos foram exagerados, apontando para um imposto cobrado de todas as empresas na França, conhecido como Pagamento de Mobilidade, que subsidia o transporte coletivo e faz com que, na maioria das cidades, a venda de passagens represente apenas cerca de 10-15% da receita.

    No caso de Dunquerque, esse imposto cobria o custo de acabar com a venda de passagens, que representava 10% da receita.

    “Pagamos muito pouco [pelos custos de transporte público por meio de tarifas] e isso significa que o trânsito livre de tarifas é realmente mais fácil de implementar, especialmente porque a covid-19 reduziu ainda mais seu uso e, portanto, a receita da venda de passagens”, diz Passalacqua.

    Mas este não é o caso em todos os lugares. De acordo com Passalacqua, as tarifas representam cerca de dois terços do orçamento de transporte de Londres, o que significa que sua remoção seria “muito mais complicada” e qualquer implementação de transporte gratuito precisaria ser feita gradualmente.

    Na verdade, as diferentes formas de financiamento do transporte público em todo o mundo, desde programas 100% financiados pelo governo na Europa até lugares como Hong Kong, que investem em propriedades para gerar lucro, e as complicadas redes público-privadas no Reino Unido, também significam que o modelo francês pode ser difícil de replicar.

    “É uma grande incógnita agora”, avalia Passalacqua.

    No momento, Paris suspendeu a implementação do transporte público gratuito para todos. Um relatório encomendado pela prefeita Hidalgo, publicado em janeiro de 2019, concluiu que a gratuidade do transporte “não era a única razão de ser da política de mobilidade”.

    Em vez disso, de acordo com Quentin David, um dos autores do relatório, mirar em certos grupos, como os desempregados, para conceder transporte gratuito, poderia ser uma abordagem mais eficaz — melhorar a mobilidade social e os esforços ambientais sem levar à falência o governo local.

    “Isso pode ajudar as pessoas sem os enormes custos financeiros para a cidade”, diz ele.

    ‘Grande equalizador’

    No entanto, enquanto cidades como Paris refletem sobre a logística de financiamento de transporte gratuito e testam políticas voltadas para populações específicas, alguns especialistas acreditam que é necessário uma reavaliação completa da forma como vemos o fornecimento de transporte público.

    Alguns argumentam que existe um valor inato e igualitário em disponibilizar transporte livre de tarifas aos passageiros.

    “É um grande equalizador”, diz Michel Van Hulten, ex-político holandês e um dos primeiros defensores do transporte público gratuito na Europa.

    “Por que todos nós pagamos por necessidades comuns, como parques urbanos, bombeiros, parques infantis, sinais de trânsito, limpeza das ruas e não pelo transporte público?”

    Jenny McArthur, professora de infraestrutura urbana e políticas públicas da University College London (UCL), no Reino Unido, concorda que o foco na viabilidade financeira do setor de transporte após a queda drástica no número de passageiros durante a pandemia significa que o valor mais amplo de um sistema de transporte público se “perdeu um pouco” no debate.

    Cartaz pedindo 'tarifa zero' em protesto
    Legenda da foto,Preço do transporte é motivo frequente de protestos na América Latina

    “O modelo de financiamento que funcionou até agora não é à prova de pandemias. Não podemos contar com as tarifas cobradas do usuário da forma como fazíamos”, observa.

    Em vez disso, McArthur acredita que o transporte público gratuito poderia ser uma solução mais resiliente e igualitária para as cidades.

    “Haverá uma parcela substancial da força de trabalho que ainda precisará de transporte público”, diz ela.

    “As famílias de baixa renda dependem muito do transporte público. Pode ser considerado como um bem público. Com as dificuldades econômicas no centro das cidades, agravadas pela pandemia, as ruas comerciais podem ser revitalizadas com o transporte público gratuito.”

    Por enquanto, à medida que os grandes centros tentam sair da pandemia, continua sendo uma incógnita se o transporte público gratuito poderia ter um efeito transformador em cidades como Paris.

    “Nunca foi testado neste nível antes”, diz Audrey Pulvar.

    “Mas não é um erro ser o primeiro a tentar.”

    Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Work Life.

  • O Futuro do Ônibus a Hidrogênio no Transporte Público

    O uso do hidrogênio como combustível para ônibus urbanos e metropolitanos tem ganhado relevância nas discussões sobre o futuro da mobilidade sustentável. Considerado uma alternativa promissora aos combustíveis fósseis, o hidrogênio oferece vantagens notáveis, como emissões zero e a possibilidade de ser produzido de forma limpa. No entanto, sua implementação enfrenta desafios tecnológicos, econômicos e logísticos.

    Avanços no Uso do Hidrogênio

    Nos últimos anos, o hidrogênio verde, produzido a partir de fontes renováveis como energia solar ou eólica, tem sido cada vez mais explorado para transporte público. Vários países estão investindo em ônibus movidos a hidrogênio, com exemplos notáveis na Europa e na Ásia. Empresas como a Toyota, Hyundai e Ballard Power Systems têm liderado o desenvolvimento de células de combustível para esses veículos.

    Na Alemanha, por exemplo, projetos-piloto com ônibus movidos a hidrogênio foram implementados em cidades como Hamburgo e Frankfurt, integrando essa tecnologia ao transporte público. Na Ásia, o Japão e a China também têm investido maciçamente em infraestrutura de hidrogênio, tanto para transporte quanto para geração de energia. O governo japonês, em particular, aposta em um futuro “economia do hidrogênio”, alinhando transporte público e privado com o uso desse combustível limpo.

    No Brasil, os avanços ainda são limitados, mas iniciativas como o Programa Brasileiro de Hidrogênio têm fomentado estudos e parcerias para a futura utilização de hidrogênio em ônibus urbanos. São Paulo já experimentou ônibus a hidrogênio na sua frota, embora o projeto ainda não tenha sido escalado.

    Desafios Tecnológicos e Econômicos

    Os principais desafios para a adoção do hidrogênio no transporte público incluem o custo de produção e a falta de infraestrutura para abastecimento. O processo de produção de hidrogênio verde é caro, embora o custo venha diminuindo com os avanços tecnológicos. O armazenamento e transporte do hidrogênio também são complexos e caros, pois ele precisa ser mantido a temperaturas extremamente baixas ou sob alta pressão, o que exige investimentos em tanques especiais e infraestrutura de abastecimento.

    Além disso, a durabilidade das células de combustível ainda não alcançou níveis ideais para garantir a mesma longevidade que os ônibus a diesel ou elétricos a bateria. Outro desafio é a produção de hidrogênio azul (usando gás natural) que, embora mais barata, ainda gera emissões de CO2.

    Vantagens do Hidrogênio

    • Emissões Zero: O uso de células de combustível de hidrogênio não gera emissões de poluentes, apenas vapor de água, tornando-o uma solução atraente para grandes áreas urbanas onde a poluição do ar é um problema significativo.
    • Autonomia Maior: Comparado aos ônibus a bateria elétrica, os ônibus movidos a hidrogênio têm uma autonomia significativamente maior, podendo operar por longas distâncias com uma única carga. Isso é particularmente relevante para rotas metropolitanas e intermunicipais.
    • Tempo de Abastecimento: O reabastecimento de hidrogênio é muito mais rápido do que a recarga de baterias elétricas, levando apenas alguns minutos, enquanto as baterias elétricas podem levar horas para recarregar completamente.

    Desvantagens do Hidrogênio em Relação às Baterias Elétricas

    • Custo de Infraestrutura: Enquanto os ônibus elétricos a bateria podem aproveitar a infraestrutura existente em termos de fornecimento de eletricidade, o hidrogênio requer uma nova rede de estações de abastecimento, o que demanda investimentos significativos.
    • Custo de Produção do Hidrogênio Verde: A produção de hidrogênio de forma sustentável (hidrogênio verde) ainda é mais cara e ineficiente do que a eletricidade usada em baterias, o que pode tornar os ônibus a hidrogênio menos competitivos.
    • Eficiência Energética: O processo de conversão de energia do hidrogênio para a célula de combustível é menos eficiente do que o uso direto de eletricidade em baterias, resultando em maior consumo de energia para percorrer a mesma distância.

    Perspectivas Futuras

    À medida que os governos e empresas investem em infraestrutura e pesquisa, espera-se que o hidrogênio desempenhe um papel crucial na descarbonização do transporte público. No entanto, sua adoção em larga escala depende da superação dos desafios econômicos e logísticos. Alguns especialistas preveem que o hidrogênio terá um papel complementar ao das baterias elétricas, sendo mais útil em rotas de longa distância e em aplicações que exigem maior autonomia, enquanto as baterias elétricas continuarão dominando as rotas urbanas de curta distância.

    A mobilidade movida a hidrogênio, se implementada com sucesso, pode oferecer uma solução viável e limpa para os desafios ambientais e de transporte urbano, mas isso exigirá cooperação entre governos, iniciativa privada e sociedade.

  • Vantagens da expansão do Jaé na Região Metropolitana do Rio de Janeiro

    O Jaé, novo sistema de bilhetagem digital da Prefeitura do Rio de Janeiro, traz uma série de benefícios para os usuários de transporte público ao permitir uma gestão mais simples e prática das tarifas. O sistema, já implantado em modais de transporte regulamentados pelo município – como BRT, VLT, ônibus e vans municipais, vans e cabritinhos -, elimina a necessidade de cartões físicos ou bilhetes de papel, com a possibilidade de gerenciar as passagens diretamente por um aplicativo de celular.

    A Prefeitura do Rio propõe a expansão desse sistema para outros modais da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, como barcas, trens, metrô e ônibus intermunicipais, visando a gerar impactos positivos substanciais para os usuários e para a gestão do transporte na região.

    Comparação com o Navigo, de Paris

    Na Região Metropolitana de Paris, o sistema Navigo é amplamente utilizado e oferece uma integração robusta entre diversos modais de transporte, incluindo trens, metrô, ônibus e bondes. Assim como o Jaé, o Navigo é um sistema de bilhetagem digital que também possibilita o uso de cartões físicos ou de soluções digitais via dispositivos móveis, tendo como principal vantagem a sua capacidade de integrar completamente todos os modais, permitindo que os passageiros utilizem um único meio de pagamento para deslocamentos complexos que envolvam diferentes tipos de transporte.

    A integração proposta para o Jaé segue a mesma lógica do Navigo e traz benefícios evidentes:

    • Facilidade na integração de modais: No Rio de Janeiro, onde as viagens frequentemente envolvem a combinação de diferentes meios de transporte (ônibus, trens e barcas), a implantação do Jaé permitirá que os passageiros paguem uma única tarifa, eliminando a necessidade de múltiplos bilhetes ou cartões.
    • Simplificação no gerenciamento das passagens: Assim como no Navigo, o Jaé facilitará a compra e o gerenciamento de tarifas através de plataformas digitais, eliminando a dependência de pontos físicos de venda e recarga.
    • Promoções e descontos: No sistema Navigo, há promoções voltadas a determinados grupos de usuários, como jovens e idosos, além de tarifas reduzidas durante períodos de menor demanda. Com a expansão do Jaé, há a possibilidade de se implementar políticas semelhantes, tornando o transporte público mais acessível e atrativo, além de introduzir tarifas promocionais em fins de semana ou nos períodos de baixo fluxo.

    Vantagens para a Região Metropolitana do Rio de Janeiro

    A ampliação do Jaé para os sistemas de transporte da Região Metropolitana do Rio de Janeiro também trará vantagens estratégicas para a gestão pública e para os usuários:

    • Redução de custos e fraudes: A eliminação gradual dos bilhetes de papel e a automação dos pagamentos reduz os custos associados à produção e distribuição desses bilhetes. Além disso, a digitalização contribui para a mitigação de fraudes no sistema.
    • Transparência e monitoramento: Assim como no modelo parisiense, o sistema de bilhetagem digital do Jaé permitirá o monitoramento em tempo real do uso dos transportes, oferecendo dados preciosos para que as autoridades otimizem rotas, horários e frequências de acordo com a demanda dos usuários. Esse nível de controle é fundamental para a eficiência do transporte público em áreas densamente povoadas como a Região Metropolitana do Rio.
    • Inclusão social: A oferta de promoções, descontos e até a possibilidade de tarifa zero aos domingos são incentivos que poderão tornar o transporte público mais acessível e inclusivo. No caso do Navigo, as tarifas semanais, mensais e anuais oferecem um custo reduzido aos usuários que utilizam o transporte regularmente, o que também pode ser replicado no Jaé.

    Em última instância, a integração do Jaé aos modais intermunicipais pode criar uma rede de transporte mais coesa, acessível e eficiente, permitindo uma melhor mobilidade urbana e maior qualidade de vida para os moradores da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

    É fundamental, portanto, que o Governo do Estado e a Prefeitura do Rio estabeleçam um pacto sustentável, para expandir o Jaé o mais rápido possível, uma vez que a gestão pública compartilhada da bilhetagem digital, com o adequado controle social, é estratégica para a melhoria imediata da mobilidade na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Ao seguir esse caminho, o Rio de Janeiro poderá avançar na direção de um sistema de transporte público mais eficiente, transparente e integrado, beneficiando tanto os usuários quanto a gestão pública.

    José Augusto Valente é membro da Divisão Técnica de Transporte e Logística do Clube de Engenharia. Foi secretário de Política Nacional de Transportes e Presidente do DER-RJ

    Publicado no Monitor Mercantil em 26/09/2024

  • Administração de serviços públicos: como superar os problemas das privatizações?

    Este webpost foi atualizado em 25/11/2024

    Um serviço público é uma atividade prestada ou coordenada pelo Estado com o objetivo de atender às necessidades básicas da sociedade, como saúde, educação, segurança e transporte. O principal objetivo de um serviço público é garantir o bem-estar coletivo e assegurar direitos fundamentais, independentemente da condição financeira dos usuários.

    Um serviço privado é oferecido por empresas que têm a liberdade de decidir a quem e como vender seus produtos ou serviços, baseados em contratos individuais entre as partes.

    Os serviços públicos, entretanto, são regulados por normas que visam a garantir o interesse social, obedecendo a parâmetros, tais como:

    Universalidade – atende a todos, sem discriminação e com tarifa módica ou zero

    Continuidade e qualidade – serviço prestado de forma estável e com excelência

    Eficiência e transparência – uso dos recursos públicos visando ao benefício maior que o custo, submetido ao controle social, com dados públicos e auditáveis.

    Há três modelos básicos de prestação de serviços públicos:

    . gerido e executado pelo poder público;

    . gerido pelo poder público, executado pela iniciativa privada; e

    . gerido e executado pela iniciativa privada

    Este último modelo está em vigor em grande parte dos contratos de concessão (também chamados, genericamente, de privatização), sendo defendido como solução para a ineficiência estatal. Este modelo, no entanto, apresenta alguns problemas, como:

    . aumento periódico de tarifas, para maximizar ganhos, com exclusão dos usuários mais pobres;

    . redução de investimentos e queda da qualidade dos serviços, para com a mesma receita maximizar o lucro; 

    . desigualdade de acesso, priorizando áreas mais rentáveis, deixando as demais sem atendimento adequado;

    . transparência zero, dificultando a participação da sociedade no controle dos serviços; e

    . desalinhamento com o interesse público, especialmente em atender metas sociais ou ambientais, como a sustentabilidade.

    Esse problema, não ocorre apenas no Brasil. Na Europa e nos Estados Unidos, tem-se vários exemplos de privatizações mal-sucedidas. Entre elas:

    Água em Paris (França): A privatização do serviço de abastecimento de água na capital francesa levou a aumentos significativos nas tarifas e à insatisfação popular. Em 2010, o município reestatizou o serviço, reduzindo os preços e aumentando a transparência.

    Energia em Hamburgo (Alemanha): Após anos de privatização, Hamburgo optou por reestatizar sua rede elétrica em 2013, para alinhar o serviço com seus objetivos de sustentabilidade e energia renovável.

    Água em Atlanta (EUA): A cidade de Atlanta privatizou o abastecimento de água em 1999, mas a má prestação de serviços e os custos elevados levaram à rescisão do contrato em 2003, com o controle retornando ao setor público.

    O que fazer para superar os problemas da privatização, no Brasil?

    Uma gestão pública eficaz,com operação pública ou privada, mas sob rígido controle social, pode ser uma alternativa viável e mais sustentável do que a reestatização de serviços, sob controle estatal pleno – gestão e operação –, que apresenta problemas políticos, fiscais e jurídicos, com baixa governabilidade para superá-los.

    Defendi, em artigo anterior, para o sistema metroferroviário do Rio, a gestão pública compartilhada entre União, Estado e Municípios atendidos pelo sistema, por esse modelo permitir maior capilaridade, atendendo a todos os espaços metropolitanos, de forma mais eficiente, como demonstrou o SUS – exemplo de gestão pública compartilhada –, durante a pandemia do Covid.

    Acredito que este modelo de gestão, sob rígido controle social, é essencial para assegurar o interesse público, com a participação da sociedade civil organizada na fiscalização e auditoria dos serviços.

    Enquanto a aprovação da PEC 25/2023, que visa à criação do Sistema Único de Mobilidade (SUM), não ocorre, os consórcios públicos, com dois ou mais entes federativos, podem ser uma solução, de curto e médio prazos, provisória e eficiente, ao garantir transporte público de qualidade e com tarifas acessíveis em todas as regiões do país.

    Acredito que essa proposta poderá ser uma alternativa eficaz para superar os problemas trazidos pela privatização de serviços públicos. Enquanto a reestatização pode ser complexa e custosa, especialmente em termos de segurança jurídica, a gestão pública compartilhada – União, Estados e Municípios -, associada a mecanismos de rígido controle social e uso de consórcios públicos, surge como uma solução potencialmente viável para garantir a qualidade e a continuidade dos serviços essenciais.

    José Augusto Valente é membro da Divisão Técnica de Transporte e Logística do Clube de Engenharia. Foi secretário de Política Nacional de Transportes e Presidente do DER-RJ.

    Clique aqui para ver o artigo original publicado. no Monitor Mercantil em 2/10/2024

  • A Evolução dos Ônibus Elétricos: Perspectivas Futuras e Impacto Global

    A transição para veículos elétricos no transporte público, em especial os ônibus, vem ganhando força em todo o mundo como uma solução essencial para mitigar os impactos ambientais e melhorar a qualidade de vida nas áreas urbanas. Nos últimos anos, avanços tecnológicos significativos impulsionaram o crescimento do uso de ônibus elétricos, proporcionando mais eficiência energética, autonomia e redução de custos operacionais. As perspectivas futuras para essa tecnologia são promissoras, com uma expansão acelerada esperada em várias partes do mundo, incluindo Ásia, Europa, Estados Unidos e Brasil.

    Evolução Tecnológica dos Ônibus Elétricos

    A evolução dos ônibus elétricos está diretamente ligada a três pilares principais: o desenvolvimento de baterias, as inovações nos sistemas de recarga e a melhoria da eficiência energética. Esses avanços têm tornado a operação desses veículos mais prática e viável em grandes cidades.

    1. Desenvolvimento das Baterias:
      As baterias de íon-lítio, que impulsionam a maioria dos ônibus elétricos, têm se tornado mais densas em termos energéticos, permitindo uma autonomia de até 350 km por carga, como é o caso de modelos da BYD e Proterra. A redução no tempo de recarga também é um avanço importante, com ônibus podendo ser recarregados em estações rápidas em menos de uma hora.Pesquisas sobre baterias de estado sólido indicam que esses novos tipos de baterias podem aumentar a densidade energética em até 50% e melhorar a segurança, representando o futuro dessa tecnologia. Segundo a BloombergNEF, os preços das baterias caíram mais de 85% na última década, permitindo que ônibus elétricos estejam se tornando uma alternativa financeiramente competitiva.
    2. Sistemas de Recarga Inovadores:
      Sistemas de recarga dinâmica, como indução magnética, estão em fase de testes em países como Coreia do Sul e Suécia, permitindo que os ônibus carreguem suas baterias enquanto estão em movimento. Essa tecnologia elimina a necessidade de paradas prolongadas e garante mais tempo de operação.
    3. Eficiência Energética:
      Tecnologias como a frenagem regenerativa, que reutiliza a energia gerada durante a frenagem para recarregar as baterias, aumentam a eficiência dos ônibus elétricos. Isso, combinado com motores mais compactos e eficientes, ajuda a reduzir o consumo de energia em operações urbanas.

    Casos de Sucesso Global

    A adoção de ônibus elétricos tem sido particularmente notável em algumas regiões do mundo, com a China liderando globalmente o uso dessa tecnologia. A cidade de Shenzhen é um dos exemplos mais conhecidos, com uma frota inteiramente elétrica de mais de 16 mil ônibus. Desde a implementação dessa frota, a cidade reduziu suas emissões de CO₂ em aproximadamente 1,35 milhão de toneladas por ano.

    Na Europa, cidades como Amsterdã, Paris e Londres também estão fazendo progressos significativos. Em Paris, a operadora de transporte público RATP está convertendo gradualmente toda a sua frota de ônibus para veículos elétricos, com o objetivo de atingir 100% de eletrificação até 2025. Londres já implementou mais de 500 ônibus elétricos, reduzindo drasticamente as emissões de gases poluentes na cidade.

    Nos Estados Unidos, cidades como Los Angeles e Nova York estão adotando metas ambiciosas para eletrificar suas frotas de ônibus. Nova York, por exemplo, pretende eletrificar todos os seus ônibus até 2040, com investimentos massivos em infraestrutura de recarga e novos veículos.

    Soluções Inovadoras para Desafios Operacionais

    A eletrificação de frotas de ônibus enfrenta desafios significativos, como a necessidade de infraestrutura de recarga adequada, altos custos iniciais e a complexidade da transição. No entanto, soluções inovadoras estão sendo implementadas globalmente para superar esses obstáculos.

    1. Infraestrutura de Recarga Compartilhada:
      Parcerias público-privadas, como as observadas na Alemanha, têm sido fundamentais para acelerar a construção de estações de recarga. Em Berlim, os hubs de recarga atendem a vários operadores de transporte, otimizando o uso de infraestrutura e reduzindo custos.
    2. Integração com Sistemas de Transporte:
      Em cidades como Amsterdã, os ônibus elétricos estão sendo integrados a sistemas de transporte público mais amplos, como trens e metrôs, criando um ecossistema de transporte sustentável que reduz a dependência de veículos privados e melhora a eficiência energética das cidades.
    3. Financiamento e Subsídios:
      O apoio governamental tem sido essencial para viabilizar a transição. Nos Estados Unidos, o Pacote de Infraestrutura de 2021 destinou mais de US$ 10 bilhões para eletrificação de frotas de ônibus, e na União Europeia, cidades recebem incentivos financeiros para reduzir as emissões de transporte público.

    Impacto Social da Eletrificação do Transporte Público

    Além dos benefícios ambientais, a eletrificação dos ônibus traz impactos sociais profundos. A redução de poluição atmosférica e sonora melhora a qualidade de vida em áreas urbanas, especialmente nas grandes cidades, onde o transporte movido a diesel contribui significativamente para problemas respiratórios. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), milhões de mortes prematuras são causadas pela poluição do ar a cada ano, e a transição para ônibus elétricos pode ajudar a mitigar essa estatística, melhorando a saúde pública.

    Além disso, a eletrificação pode gerar novos empregos em setores como a fabricação de baterias e a construção de infraestrutura de recarga, contribuindo para o crescimento econômico e a transformação das indústrias de transporte.

    Perspectivas Futuras

    As perspectivas para a expansão global dos ônibus elétricos são muito positivas. Estima-se que, até 2030, mais de 50% das frotas de ônibus em grandes cidades ao redor do mundo serão eletrificadas. A queda nos custos das baterias e a evolução das tecnologias de recarga devem acelerar ainda mais esse processo. A transição global para frotas elétricas, liderada por cidades inovadoras na China, Europa e Estados Unidos, sinaliza um futuro onde o transporte público será mais sustentável, econômico e benéfico para a sociedade como um todo.

    Conclusão

    A eletrificação dos ônibus urbanos é uma solução viável e eficaz para enfrentar os desafios ambientais e sociais do século XXI. Com avanços tecnológicos contínuos, o apoio governamental e o envolvimento de toda a sociedade, a transição para frotas elétricas pode trazer benefícios significativos para as cidades em termos de sustentabilidade, saúde pública e economia.

    É fundamental que governos e cidadãos apoiem políticas de incentivo à eletrificação, garantam investimentos em infraestrutura de recarga e promovam a conscientização sobre os benefícios desse modelo de transporte. Apenas com um esforço conjunto será possível criar cidades mais limpas, saudáveis e eficientes.