• Mobilidade Urbana: Planejamento, Gestão e Transparência Eficientes

    Contextualização

    O Projeto de Lei nº 3278/2021, atualmente em tramitação no Congresso Nacional, busca atualizar o marco legal da Política Nacional de Mobilidade Urbana. Proposto pelo senador Antonio Anastasia, o PL revisa a Lei nº 12.587/2012 e outras legislações relacionadas para enfrentar os desafios contemporâneos do transporte urbano no Brasil. Este texto explora as disposições relativas ao planejamento, gestão, operação e transparência, que são fundamentais para uma mobilidade urbana eficiente e inclusiva.

    Planejamento

    O PL estabelece a necessidade de planejamento baseado em estudos técnicos e econômicos confiáveis, priorizando o interesse público. Dentre as principais propostas, destacam-se:

    1. Critérios para Planejamento das Redes de Transporte (Art. 18, inciso VI):
      • O planejamento e a implantação de redes de transporte público coletivo devem ser orientados por análises técnicas robustas, garantindo eficiência e sustentabilidade.
    2. Integração e Escalonamento de Atividades Urbanas (Art. 2º, inciso XX, da Lei nº 10.257/2001):
      • Inclui o escalonamento dos horários de funcionamento das atividades urbanas como estratégia para distribuir uniformemente a demanda de viagens ao longo do dia, mitigando gargalos e otimizando os fluxos de mobilidade.
    3. Governança Interfederativa (Art. 17, inciso VIII):
      • Promove a criação de estruturas de governança interfederativa para integrar ações de planejamento em regiões metropolitanas e aglomerados urbanos.

    Gestão

    O projeto reforça o papel de cada ente federativo na gestão da mobilidade urbana, com atribuições específicas:

    1. Coordenação pela União (Art. 16):
      • Liderança na definição de normas de referência nacionais, monitoramento e apoio técnico aos Estados e Municípios.
      • Previsão de assistência financeira excepcional em casos de calamidade pública ou emergências (Art. 16, inciso VIII).
    2. Capacitação de Pessoal (Art. 17, inciso IV):
      • Propõe programas de treinamento nas áreas de planejamento, gestão e operação, fortalecendo a capacidade técnica dos gestores públicos.
    3. Gestão Associada (Art. 9º-A, §3º):
      • Permite a adoção de critérios unificados para a regulação em casos de gestão associada entre diferentes entes federativos, promovendo maior coordenação entre os níveis de governo.

    Operação

    A operação eficiente e sustentável do transporte público é central ao PL, que define regras para concessões, contratações e prestação de serviços:

    1. Modalidades de Concessão e Permissão (Art. 10-A):
      • Determina que os serviços de transporte público sejam contratados por meio de licitação, nas modalidades de concessão ou permissão, com requisitos específicos para cada caso.
    2. Garantias de Qualidade na Operação (Art. 10-B):
      • Define padrões mínimos de qualidade, incluindo regularidade, acessibilidade e continuidade, além de condições de manutenção de veículos e infraestrutura.
    3. Integração Modal (Art. 10-C):
      • Obriga o poder público a disponibilizar espaços públicos que permitam a integração entre meios de transporte individual e coletivo, promovendo maior conectividade nos sistemas urbanos.
    4. Sistemas de Comunicação com Usuários (Art. 19-A):
      • Estabelece a necessidade de sistemas eficientes de informação nos pontos de parada, estações e terminais, garantindo clareza e acessibilidade para os usuários.

    Transparência

    A transparência é um dos pilares do novo marco regulatório, com ênfase no acesso à informação e prestação de contas:

    1. Divulgação de Informações Tarifárias (Art. 8º, §2º):
      • Os municípios devem divulgar periodicamente os impactos dos benefícios tarifários no custo dos serviços de transporte público.
    2. Regulação Transparente e Publicidade de Atos (Art. 9º-A, §§5º-8º):
      • Exige que entidades reguladoras garantam publicidade aos relatórios, estudos e decisões relacionadas à regulação e fiscalização dos serviços. A informação deve ser disponibilizada online, observando os direitos de sigilo comercial e interesse público.
    3. Alimentação de Dados no Sistema Nacional de Informações (Art. 17, inciso V):
      • Prevê o fornecimento semestral de informações por Estados e Municípios para alimentar o Sistema Nacional de Informações de Mobilidade Urbana, promovendo uma base de dados robusta e acessível.
    4. Participação Social (Art. 9º-A, §2º, inciso XVII):
      • Inclui mecanismos para que os usuários participem ativamente, oferecendo feedback e contribuições sobre a qualidade do serviço prestado.

    Conclusão

    O PL 3278/2021 apresenta avanços significativos na modernização da Política Nacional de Mobilidade Urbana, com propostas que reforçam o planejamento integrado, a gestão eficiente, a operação de alta qualidade e a transparência. Ao promover maior integração entre os entes federativos e incluir a sociedade no processo de regulação, o projeto alinha o setor aos princípios de eficiência e equidade, essenciais para atender às demandas urbanas contemporâneas.

  • Financiamento Sustentável para Transporte Público: PL 3278/2021

    Contextualização

    O Projeto de Lei nº 3278/2021, em tramitação no Congresso Nacional, propõe uma atualização no marco legal da Política Nacional de Mobilidade Urbana, abrangendo mudanças significativas na Lei nº 12.587/2012 e em outras legislações correlatas. De autoria do senador Antonio Anastasia, o projeto busca aprimorar diretrizes, definições e mecanismos de financiamento, visando solucionar desafios históricos do transporte público no Brasil, como déficit tarifário, falta de integração modal e queda na qualidade dos serviços. Esta análise se concentra nos aspectos relacionados ao financiamento, que são fundamentais para garantir a sustentabilidade econômica dos sistemas de transporte público coletivo.

    Aspectos de Financiamento no Novo Marco Regulatório

    1. Definições Tarifárias e Subsídios
      • O PL introduz novos conceitos que ampliam a transparência e a organização do financiamento. Destaque para a definição de “tarifa de remuneração” como o valor necessário para cobrir os custos reais do serviço, e “tarifa pública”, que é o valor pago pelos usuários. O déficit tarifário, que ocorre quando a tarifa pública é inferior ao custo real, deverá ser complementado por subsídios públicos ou receitas alternativas (Art. 9º).
      • Institui a obrigatoriedade de subsídios tarifários para cobrir o déficit, garantindo a modicidade tarifária e evitando onerar excessivamente os usuários. Este subsídio pode vir de receitas extratarifárias, tributos específicos ou transferências intergovernamentais.
    2. Fontes de Recursos
      • A proposta amplia as fontes de financiamento do transporte público coletivo. Entre os instrumentos destacados estão:
        • Contribuição de Melhoria: Prevista no Art. 6º, esse tributo será aplicado para capturar a valorização imobiliária decorrente da instalação de infraestrutura de transporte.
        • CIDE-Combustível: O PL reserva no mínimo 60% dos recursos arrecadados com a CIDE para investimentos em infraestrutura de transporte urbano (Art. 3º).
        • Política de Estacionamentos e Tributos Específicos: Determina a aplicação de receitas obtidas com estacionamentos públicos e tributos sobre serviços de mobilidade para subsidiar o transporte coletivo (Art. 23).
    3. Mecanismos Emergenciais
      • Em situações de calamidade pública ou emergência, o projeto prevê financiamento excepcional para custeio do transporte público coletivo, com a União assumindo papel central na assistência financeira (Art. 16, inciso VIII; Art. 24).
    4. Governança Interfederativa e Repartição de Recursos
      • O projeto incentiva a criação de estruturas de governança interfederativa nas regiões metropolitanas, possibilitando uma melhor gestão dos recursos e integração dos serviços (Art. 17 e Art. 19-A).
      • Propõe que os entes federados devem integrar ações no âmbito de consórcios públicos para garantir acesso a recursos federais. Cumprir as obrigações de fornecimento de informações ao Sistema Nacional de Mobilidade Urbana será essencial para habilitar o acesso aos recursos (Art. 17, §2º).
    5. Planejamento Orçamentário
      • O PL exige que União, Estados e Municípios incluam, em seus planos plurianuais e leis de diretrizes orçamentárias, ações programáticas para aprimorar a mobilidade urbana e subsidiar tarifas (Art. 25).
      • Os investimentos e subsídios serão operacionalizados por fundos públicos, que devem ser instituídos por legislação própria.
    6. Revisão Contratual e Equilíbrio Econômico-Financeiro
      • O projeto detalha mecanismos para assegurar o equilíbrio econômico-financeiro dos contratos de concessão. Definições claras de reajustes ordinários e extraordinários, bem como revisões tarifárias, estão previstas para evitar prejuízos aos operadores e garantir a continuidade dos serviços (Art. 9º, §§6º e 7º).
      • Permite a revisão e adaptação de contratos vigentes para atender às novas regras, assegurando direitos adquiridos e o equilíbrio financeiro retroativo (Art. 6º).
    7. Incentivo à Inovação e Receitas Alternativas
      • Fomenta o uso de tecnologias para automação da cobrança de tarifas e sistemas de bilhetagem eletrônica (Art. 8º, inciso X).
      • Prevê mecanismos para estimular a geração de receitas alternativas, como publicidade e exploração de espaços comerciais associados à infraestrutura de transporte.

    Conclusão

    O PL 3278/2021 busca estabelecer uma estrutura financeira sólida e sustentável para o transporte público no Brasil, com medidas que combinam subsídios, arrecadação tributária direcionada e incentivos à eficiência. Se aprovado, representará um avanço significativo para a mobilidade urbana, promovendo maior equilíbrio econômico, qualidade de serviços e inclusão social no transporte público.

  • Justiça homologa acordo de transição da Supervia para o Governo do Rio até nova licitação

    O pacto visa reorganizar o sistema de transporte ferroviário urbano antes da abertura de uma nova licitação

     Victor Serra

    A Justiça do Rio homologou um acordo crucial entre a Supervia e o Governo do Estado, permitindo a transição da gestão dos trens urbanos até que uma nova licitação seja realizada. A decisão, emitida pela 6ª Vara Empresarial da Capital, estabelece um período de transição que deve durar entre seis e nove meses.

    O acordo foi assinado em 26 de novembro, durante uma reunião no Palácio Guanabara, com a presença do governador Cláudio Castro, do secretário de Transporte e Mobilidade, Washington Reis, e representantes da concessionária Supervia. O pacto visa reorganizar o sistema de transporte ferroviário urbano antes da abertura de uma nova licitação.

    No total, serão investidos R$ 450 milhões durante o período de transição. Deste montante, R$ 300 milhões serão aportados pelo governo estadual, enquanto a Supervia contribuirá com R$ 150 milhões. Além disso, o juiz autorizou que o Governo do Rio antecipe um valor de R$ 30 milhões, além do repasse regular do Bilhete Único, que é de R$ 4,8 milhões, para a manutenção do sistema ferroviário até que o financiamento acordado seja integralmente disponibilizado.

    A malha ferroviária urbana do Rio é extensa, contando com 270 quilômetros de trilhos, cinco ramais, três extensões e 104 estações. Diariamente, cerca de 300 mil pessoas utilizam os trens para se deslocar na região metropolitana. Ao longo dos anos, a Supervia enfrentou diversas dificuldades financeiras e manifestou interesse em devolver a concessão devido a esses desafios.

  • Novo Marco Legal para Transporte Público no Brasil

    Fonte: Agência Senado

    A Comissão de Infraestrutura (CI) aprovou nesta terça-feira (3) o substitutivo ao PL 3.278/2021, que estabelece um novo marco legal para o transporte público coletivo urbano. Relator, o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB) apresentou um texto alternativo à proposta do ex-senador Antonio Anastasia, atual ministro do Tribunal de Contas da União (TCU). Por isso o projeto será submetido a turno suplementar de votação na CI. Se aprovado, e não houver recurso para votação em Plenário, o texto seguirá para a Câmara dos Deputados.

    Originalmente, o PL 3.278/2021 alterava a Política Nacional de Mobilidade Urbana (Lei 12.587, de 2012), o Estatuto da Cidade (Lei 10.257, de 2001) e a Lei 10.636, de 2002, para fazer uma série de mudanças no sistema de transporte público. No entanto, a pedido de várias organizações ligadas ao setor, Veneziano optou por apresentar um projeto de marco legal completo para o transporte público coletivo urbano intermunicipal, interestadual e internacional e mudar essa mesma legislação para compatibilizá-la com a nova norma a ser gerada.

    Financiamento

    Uma das maiores novidades da proposta é a separação entre a tarifa e a remuneração paga à empresa operadora das linhas de transporte. Assim, quando a tarifa não for suficiente para bancar o sistema, o poder público terá de pagar a diferença. Para isso o projeto prevê alternativas como operações estruturadas de financiamento com recursos de fundos públicos ou privados, aplicações no mercado de capitais e investimentos feitos pelas empresas contratadas para operar os serviços.

    Esses investimentos das empresas operadoras terão de ser ressarcidos por meio de remuneração pela prestação do serviço, auditados anualmente e certificados pelo poder público.

    Outras fontes de financiamento seriam recursos vindos de bancos de desenvolvimento e instituições de fomento, de compensações ambientais e de fundos e programas dedicados à sustentabilidade e à adaptação às mudanças climáticas.

    A união também poderá subsidiar os sistemas por meio de programas federais de fomento; de programas sociais ou de custeio de equipamentos; e de contrapartidas ao cumprimento de metas de qualidade e eficiência, entre outros mecanismos.

    O projeto ainda destina ao investimento no transporte público 60% dos recursos da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide Combustível), que incide sobre a importação e comercialização de petróleo, gás natural e álcool etílico combustível.

    Transparência

    Uma das obrigações dos titulares dos serviços será fornecer, diretamente ou por meio do seu órgão regulador, as informações para o funcionamento do Sistema Nacional de Informações da Mobilidade Urbana, gerido pela União. Além disso, deverão ser divulgados custos; dados e impactos dos benefícios e gratuidades tarifários (idosos, estudantes etc.); informações sobre a política tarifária e seu impacto; dados da oferta e da demanda; indicadores de eficiência e qualidade e todas as informações sobre o setor que puderem ser divulgadas sem ferir a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei 13.709, de 2018).

    Da mesma forma, as empresas contratadas terão de fornecer aos entes toda a informação necessária à gestão do serviço. Em caso de atuarem em mais de um município ou estado ou de operarem serviços de transporte diferentes num mesmo município, deverão manter registros separados, de forma a demonstrar os custos e as receitas de cada serviço de forma independente.

    Tributos

    O principal foco da proposta para o custeio do transporte público são as chamadas receitas extratarifárias.

    Para obtê-las, União, estados e municípios poderão cobrar contribuições dos proprietários pela valorização dos imóveis em função de melhorias no transporte, como a implantação de estações de metrô e terminais de ônibus, impor tarifas de congestionamento e exigir contrapartidas de construtoras e de promotores de eventos pelo impacto dessas atividades no trânsito.

    Por fim, o Estado poderá impor tributos ou tarifas sobre a circulação de veículos individuais em determinadas áreas, dias e horários e sobre as emissões de poluentes e cobrar pela oferta dos serviços de transporte público coletivo, também para pessoas jurídicas, entre outras possibilidades previstas na política de mobilidade urbana local.

    Outros recursos poderão ser obtidos da publicidade usando equipamentos do sistema, de receitas imobiliárias, como as de cessão de terrenos públicos para a construção de garagens pelas empresas, de cobranças por uso de estacionamento público ou privado, da exploração de serviços e de espaços comerciais em terminais e estações e da comercialização de créditos de carbono.

    Ainda pela proposta, o transporte ilegal de passageiros poderá ser punido com sanções administrativas e multa de até R$ 15 mil, além de perda do veículo.

    Segundo Veneziano, tudo isso “visa privilegiar o transporte coletivo e desestimular o uso de modos e serviços prejudiciais à Política Nacional de Mobilidade Urbana”.

    Gestão financeira

    A gestão financeira será responsabilidade do titular do serviço, a quem caberá implantar a bilhetagem eletrônica; comercializar as passagens; e controlar eventuais rendimentos e créditos expirados. Também será possível contratar empresa para esse trabalho, desde que por meio de licitação e que haja auditoria anual independente.

    Caso sobrem recursos depois de remunerado o operador do serviço, eles deverão ser aplicados na melhoria da prestação dos serviços.

    Prioridades

    O investimento em infraestrutura e serviços públicos de transporte coletivo deverá priorizar projetos de corredores exclusivos ou, quando inviáveis, de faixas exclusivas e preferenciais, que visem a integração física, tarifária e operacional dos diferentes modos e redes de transporte e que estruturem e ajudem no desenvolvimento urbano integrado.

    Também serão privilegiados os investimentos na redução de emissões de poluentes e gases de efeito estufa, na transição tecnológica para fontes mais limpas de energia ou combustíveis, na diminuição das desigualdades sociais e na melhoria dos locais de acesso ao sistema de transporte e da segurança viária e conforto dos passageiros e da população.

    Gratuidades

    Os benefícios e gratuidades, como os concedidos a idosos (Lei 10.741, de 2003), pessoas com deficiência, crianças de até seis anos, estudantes, carteiros e policiais, terão que ser bancados diretamente pelo poder público, sem entrar na contabilidade das empresas e também sem impactar a tarifa para os demais usuários. Os titulares dos serviços poderão ainda conceder incentivos fiscais para a redução das emissões de poluentes.

    Política tarifária

    A política tarifária deverá levar em conta a ampliação do acesso dos cidadãos ao serviço, a capacidade de pagamento dos passageiros, inclusive em comparação com os custos do transporte individual, as necessidades da população e a possibilidade de integração entre modos e redes de transporte, principalmente através da adoção de bilhete único, quando possível, ou outro mecanismo de conjugação de serviços.

    Outras exigências do texto são clareza e objetividade, publicidade, simplicidade e transparência na definição do valor das passagens, incentivo ao uso de cartões eletrônicos, visando à automação integral da cobrança de passagens e subsídio cruzado entre linhas e modais superavitários e deficitários, com o objetivo de se obter a oferta de uma rede única e integrada.

    Diretrizes

    Segundo a proposta, o transporte público urbano deverá ser organizado em articulação com as políticas de desenvolvimento urbano e regional, de habitação, de segurança viária, de redução das mudanças climáticas e de segurança pública, entre outras . Outras diretrizes são a universalização do acesso; a prestação de serviço de qualidade; a integração física, tarifária e operacional; a captação de recursos suficientes para prestação adequada do serviço; a bilhetagem e o monitoramento da frota pelo poder público de forma independente ou, no caso de concessão, de forma compartilhada, de modo a garantir o controle público do serviço.

    A União, em caso de transporte interestadual ou internacional, os estados (transporte urbano intermunicipal), o Distrito Federal e os municípios (transporte coletivo urbano) poderão prestar o serviço diretamente ou repassá-lo à iniciativa privada. No entanto, o texto proíbe os contratos de natureza precária, como contratos de programa, convênios, termos de parceria, autorizações e outros, definindo que as empresas só poderão ser contratadas por meio de licitação.

    Planejamento

    Caberá à União, aos estados e aos municípios planejar a rede de transporte público em todos os seus aspectos. Além da prestação de serviços integrados e de qualidade, esse planejamento deve buscar a redução de emissões de poluentes e gases de efeito estufa e a compatibilização com o plano de mobilidade, o plano diretor e o plano de desenvolvimento urbano integrado. O planejamento deve ainda ser amplamente divulgado à população, com a realização de audiências ou consultas públicas.

    Gestão associada

    Os entes federados poderão também se associar para prestar o serviço ou concedê-lo a empresas privadas, com a criação de unidades regionais de transporte público por meio de consórcio ou de convênio de cooperação. O texto também permite que os municípios formem consórcios entre si ou com os estados e/ou a União para operar serviço intermunicipal ou interestadual urbano.

    Operação

    O texto permite ainda que o município designe uma entidade reguladora, com autonomia decisória, administrativa, orçamentária e financeira, para normatizar e fiscalizar a prestação dos serviços.

    No entanto, serão responsabilidades do poder público estabelecer os padrões e normas; promover a melhoria da qualidade, desempenho e cobertura do serviço e a redução de emissões de poluentes; garantir o cumprimento dos contratos, do planejamento e das normas de gestão; definir a política tarifária; e fazer as revisões e os reajustes estabelecidos nas licitações para a remuneração das empresas contratadas para a prestação dos serviços,.

    Os entes federados também terão de organizar a participação dos cidadãos e o controle social da prestação dos serviços.

    Direitos e deveres de passageiros

    O texto de Veneziano trata ainda dos direitos e deveres dos passageiros dos serviços de transporte público coletivo, além dos previstos no Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078, de 1990) e da Lei 13.460, de 2017, entre eles o de receber um serviço de qualidade, de participar da gestão e de ter amplo acesso às informações e a canais de atendimento adequados e inclusivos.

    O controle social dos serviços poderá ser exercido por meio da participação obrigatória em órgãos colegiados dos entes federados (os titulares dos serviços), dos órgãos governamentais ligados ao setor, das empresas, dos passageiros e “de entidades técnicas, organizações da sociedade civil e de defesa do consumidor com ações relacionadas ao setor”.

    Por outro lado, são determinados deveres aos usuários, como o de zelar pela preservação dos equipamentos e de cumprir as regras de comportamento estabelecidas.

    Fórum de mobilidade

    O projeto cria ainda o Fórum Nacional de Mobilidade Urbana, colegiado de caráter consultivo com a participação da sociedade civil a ser regulamentado pelo governo federal, para prestar assistência técnica e financeira aos municípios; executar programas de capacitação de pessoal; liderar o planejamento integrado das redes de transporte público, entre outras atividades de apoio aos entes federados.

    Fonte: Agência Senado

    Clique aqui e acompanhe a tramitação final do PL 3278/2021, no Congresso Nacional

  • 1º Seminário Metroferroviário do PT: Soluções para Mobilidade

    O mundo voltou a crescer, mas a riqueza gerada não chegou aos mais necessitados (…)

    A globalização neoliberal fracassou.[1]

    O Setorial Nacional de Logística, Transportes e Mobilidade Urbana do Partido dos Trabalhadores (PT), durante o 1º Seminário Metroferroviário, realizado nos dias 04, 05 e 06 de novembro de 2024, em Brasília-DF, apresentou uma análise detalhada da situação da mobilidade urbana e do sistema ferroviário brasileiro.

    É fato que a privatização da malha ferroviária nacional foi realizada num arranjo de “filé com osso”, resultado de políticas sociais e fiscais neoliberais com ampliação desmedida da financeirização econômica, causando o enfraquecimento do financiamento de serviços públicos.

    Em verdade, no discurso da 2ª sessão do G20, em 18.11.24, tem razão o presidente Lula ao afirmar que: “A globalização neoliberal fracassou.”. E não se trata de uma causalidade ou de má gestão econômica do capitalismo, mas sim da sua essência, cada vez mais orientada para a esfera das finanças especulativas, e na concentração e centralização de capital, em detrimento da tendência fundamental de agravamento das desigualdades.

    O documento destaca os principais problemas e propõe soluções viáveis e sustentáveis para a revitalização do setor, visando ao desenvolvimento econômico e social do país, onde o serviço público deve estar a serviço da maioria da população trabalhadora.

    O GRANDE PROBLEMA DA MOBILIDADE NO BRASIL

    A mobilidade urbana no Brasil é um problema que afeta as cidades, e influencia na qualidade de vida de milhões de brasileiros. A precariedade dos sistemas de transporte público impõe à população deslocamentos longos, desconfortáveis, inseguros e atrasos, diariamente, sejam por trens, ônibus, metrôs ou automóveis. Acrescida pela queima de combustíveis fósseis pelos veículos rodoviários, contribui para a poluição do ar e o aquecimento global, e causa danos à saúde humana.

    A LIDERANÇA DE LULA E A MOBILIDADE COMO PRIORIDADE NACIONAL

    À exemplo das ações de combate à fome, propomos ao presidente Lula que a mobilidade urbana seja prioridade em seu governo, através da criação do programa “Transporte Para Todos”, com o objetivo de garantir um transporte público de qualidade aos brasileiros, e combater a exclusão social. A política pública sugerida é eficaz se implementada rapidamente, além de reduzir os custos com saúde, e promover desenvolvimento sustentável.

    • SITUAÇÃO DO SISTEMA METROFERROVIÁRIO NAS METRÓPOLES

    As cidades brasileiras enfrentam problemas crônicos em seus sistemas de transporte sobre trilhos, sobretudo trens e metrôs.

    E, geralmente, por serem caros, devido à produção de transporte que oferecem, e com manutenção precária dos veículos e equipamentos, em razão da prioridade aos lucros, ou da falta de recursos públicos suficientes, aumenta a quantidade de defeitos e quebras, e que causa paralização dos serviços.

    Em comparação ao modo rodoviário, o sistema viário e sua sinalização são providos pelo poder público, cabendo ao operador, apenas, investimentos em seus veículos. Assim, defendemos o mesmo tratamento aos transportes metroferroviários.

    A falta de confiabilidade nessa prestação de serviços, o menor número de viagens oferecidas devido às falhas constantes, somada à cláusula contratual de reequilíbrio econômico-financeiro onde a redução de usuários não impacta na receita das concessionárias, e consequentemente, forçam a população a recorrer a alternativas ainda mais caras e de fontes poluentes, como ônibus, transporte individual ou particular.

    Essa precariedade viola os direitos constitucionais de ir e vir e à mobilidade urbana eficiente, impedindo o pleno acesso ao trabalho, à educação, à saúde e ao lazer.

    PROPOSTAS PARA OS SISTEMAS METROFERROVIÁRIOS NAS REGIÕES METROPOLITANAS

    Para resolver a crise do transporte metropolitano, como o caso da Supervia no Rio de Janeiro – primeira concessão da Companhia Brasileira de Trens Urbanos – CBTU, e evitar que o problema se torne epidêmico nas demais operadoras estadualizadas e quase todas privatizadas, propomos uma gestão pública compartilhada entre União, Estado e Municípios, com rígido controle social, criando um modelo integrado que permita aumentar a eficiência e a acessibilidade aos transportes metroferroviários metropolitanos.

    Esse modelo promoveria os investimentos necessários, dividiria os custos operacionais entre os consorciados, visando o aumento da velocidade operacional que atrairá grande número de passageiros, devido a redução dos tempos de viagem. Ademais, será capaz de retomar empregos, e minimizar o uso de ônibus intermunicipais concorrentes e o transporte individual.

    Contudo, isso não seria apenas uma nova injeção de recursos para uma segunda privatização, tendo em vista que a forma adotada na primeira privatização da CBTU-STU/RJ, atualmente SUPERVIA, foi um fracasso total, resultando na evasão dos usuários devido a perda de confiabilidade nos serviços prestados. Para isso, deve ser previsto um sistema de penalização na hipótese de redução do número de usuários, ao contrário de recompensas pelo reequilíbrio econômico-financeiro.

    Também as operadoras da CBTU e TRENSURB seriam beneficiadas com investimentos, no mesmo montante que seriam repassadas as privatizações, buscando uma oferta melhor dos serviços e não deixando-as sem recursos necessários sequer para sua manutenção, como é a receita neoliberal de prejudicar e degradar os sistemas públicos para privatizá-los. Essas empresas devem ser retiradas do PND, conforme prometido pelo governo federal, para que seja possível promover essas melhorias.

    Nas operadoras privatizadas ou públicas, a União garantiria os investimentos necessários aos consórcios criados, com a participação e acompanhamento de técnicos da CBTU/TRENSURB na gestão, fiscalização dos serviços e na sua boa manutenção e conservação, além da expansão dos serviços, com apoio do PAC, programas do BNDES e/ou de linhas de financiamento internacionais (BRICS, BID e BIRD), para promoção de uma mobilidade urbana sustentável.

    Propomos juntamente, através do BNDS, o financiamento da indústria ferroviária na produção de veículos ferroviários para passageiros, do mesmo modo para as pequenas e médias cargas, incluindo os correios, e até a compra de veículos para produção de transportes, agregado à produção de trilhos. Isso, associado ao não financiamento de empresas cuja conduta praticada é de despedida imotivada dos trabalhadores.

    Para atender essas novas demandas de serviços de passageiros, além de melhorias nos sistemas da CBTU e TRENSURB, propomos a reintegração dos empregados dispensados da CBTU de Belo Horizonte-MG, privatizada no governo Zema, em quaisquer outras operadoras da CBTU ou TRENSURB, como reforço de pessoal, sendo notável a mão de obra concursada, qualificada, treinada e especializada na prestação desses serviços, e na manutenção.

    • A LOGÍSTICA FERROVIÁRIA REGIONAL DE CARGAS E PASSAGEIROS

    A gestão das malhas ferroviárias está sob controle de concessionárias que operam concentradas nos lucros e em grandes clientes, como empresas de mineração e do agronegócio, negligenciando as demandas de outras cargas gerais com menor volume e do transporte de passageiros.

    A ausência de um transporte ferroviário de passageiros e a dependência excessiva do transporte rodoviário de cargas afeta a competitividade e eleva os custos logísticos para pequenas e médias empresas e, por conseguinte, o aumento do Custo Brasil. Além do mais, sobrecarrega o sistema rodoviário, causando lentidão e acidentes frequentes, devido a alta densidade de tráfego.

    O Brasil necessita ainda de projetos e investimentos em um transporte ferroviário mais rápido para ser competitivo com o transporte rodoviário. Atualmente, com as novas tecnologias para velocidades médias superiores a 100 km/h, em linhas para até 250 km/h, tornaria o transporte ferroviário imbatível para prestação desses serviços e aliviaria as rodovias, principalmente nas ligações de capitais e regiões metropolitanas.

    Linhas de trens para essas velocidades, além de necessitar menores investimentos em sua implantação, comparadas aos “Trens Bala”, possibilitaria tarifas mais acessíveis aos usuários desse sistema. Para isso, sugerimos a implantação de novas linhas em bitola internacional, mais experimentadas para velocidades acima de 150 km/h, interligando suas capitais e o Distrito Federal, dentro de um programa de integração e segurança nacional.

    Também se faz necessária a implantação do programa “Trens Regionais” em reestudos pelo Ministério dos Transportes, estendendo-o às regiões metropolitanas para o atendimento de passageiros e cargas de maior valor agregado (Short Lines).

    A FERROVIA CENTRO-ATLÂNTICA S.A (FCA) E A RUMO MALHA OESTE S.A. (RMO)

    A malha Centro-Leste sob concessão da Ferrovia Centro-Atlântica S.A (FCA), desativou quase um terço dos 7,2 mil quilômetros de malha por serem considerados antieconômicos, pela concessionária, seguindo seu modelo de negócio, que não inclui serviços de maior custo operacional com menor remuneração, sob a ótica apenas financeira da operação ferroviária.

    A prorrogação antecipada da malha operada pela FCA está em andamento, já ocorreram as audiências públicas e aguarda-se a conclusão do relatório pela ANTT.

    A FCA é controlada atualmente pela VLI Multimodal S.A. e atende os estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal e São Paulo, servindo, predominantemente, grandes volumes, não opera serviços de passageiros e parou de atender cargas de menor volume, criando uma lacuna significativa e prejuízos econômicos para dezenas de cidades, comunidades e empresas instaladas ao longo das linhas férreas, além de dispensas sem justa causa e transferência de empregados para outras localidades fora do estado da Bahia, com redução drástica no número de funcionários nos últimos 10 anos.

    A reativação de serviços em trechos paralisados e atendimento a pequenos e médios produtores sob um novo modelo de gestão, com a inclusão de serviços de passageiros e cargas de menor volume com trens regionais (Short Lines), poderiam proporcionar uma alternativa de transporte mais segura e sustentável, promovendo um maior desenvolvimento econômico dos estados que percorre.

    A Malha-Oeste, sob concessão da RUMO Malha Oeste (RMO), com cerca de 1970 km, se destaca como uma ferrovia de grande importância para o atendimento das cargas do Mato Grosso do Sul e do Oeste Paulista, principalmente para exportação, sem contar sua posição estratégica para integração Sul-Americana ou defesa da soberania nacional, devido suas linhas chegarem até à fronteira com o Paraguai, pelo ramal de Ponta Porã-MS e a Bolívia em Corumbá-MS.

    A Concessionária priorizou a Rumo Malha Norte, em detrimento da Rumo Malha Oeste onde deixou de operar cerca de 90% dessa malha, e promoveu a demissão em massa dos trabalhadores da ferrovia, ficando sem atender grãos, combustíveis, celulose e cargas gerais diversas de baixo volume, porém de grande importância para o pequeno e médio produtor, assim como para a economia regional e dos Estados que abrange.

    Atualmente a ferrovia só atende a demanda de commodities, entre Corumbá e os portos fluviais de Esperança e Ladário, cerca de 110 km, escoando cargas de minério. O ramal de Ponta Porã foi abandonado, desde a concessão, e a maior parte do trecho Sul-Mato-Grossense e Paulista foram desativados. Essa ferrovia também operava o transporte de passageiros, excluído do contrato de concessão que se limitou apenas as cargas.

    Com a falta dos serviços ferroviários, levaram a dependência exclusiva de uma logística rodoviária, que impõe um grande fluxo de caminhões e bi-trens carregados com minério, combustíveis, celulose e cargas agrícolas prejudicando o pavimento e a ultrapassagem segura devido a formação de enormes comboios, sem falar no maior custo operacional e a ruptura do acesso e comércio com a Bolívia e Paraguai.

    A ausência de trens de passageiros obrigou a população a depender também de rodovias, com consequentes acidentes, custos elevados e emissões de poluentes. Uma reestruturação do modelo de gestão dessa malha, permitiria um transporte mais diversificado e acessível a todos, movimentando a economia regional para um desenvolvimento forte e permanente.

    Propostas do Setorial para FCA e RMO

    Propomos que através do Ministério dos Transportes, a gestão dos contratos das malhas ferroviárias seja realizada por intermédio de uma empresa pública vinculada ao mesmo, como a INFRA S.A., permitindo uma administração que priorize o interesse público. A FCA e a RMO poderiam operar em trechos específicos mediante subconcessões, junto com outras que se interessassem nessa prestação de serviços.

    Propomos ainda a implementação do Plano Estratégico Ferroviário, realizado em 2023, pela Fundação Dom Cabral e a Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM), cujo estudo apresenta uma proposta de reestruturação da malha e um estudo de demanda de transporte, reforçando a necessidade dos serviços ferroviários na Bahia (Campo Formoso-BA/Salvador-BA/Corinto-MG), além da manutenção dos empregos existentes.

    Ademais, a INFRA S.A. faria a gestão dos contratos de concessão e da movimentação de cargas e passageiros, assim como do uso, ocupação e manutenção das linhas, em cooperação com o DNIT e a ANTT, que abrangeria o desenvolvimento de estudos e projetos, sem exclusão dos executivos, para implantação e coordenação dos investimentos públicos e privados, e de modo inclusivo a revitalização de trechos desativados. Faz-se ainda necessário, a implantação de um Conselho de Usuários dos Serviços Ferroviários para contribuir numa fiscalização mais efetiva dos serviços prestados.

    Os recursos para manutenção do sistema viário, viriam das outorgas e das tarifas pagas pelo uso do quilômetro rodado sobre as linhas, seja para cargas ou passageiros.

    CONCLUSÕES DO SEMINÁRIO

    Essas propostas têm o potencial de transformar o sistema ferroviário e a mobilidade urbana no Brasil, utilizando empresas e órgãos existentes no âmbito da União, como a INFRA S.A., DNIT, ANTT, CBTU, TRENSURB, em um novo modelo administrativo das concessões para operação pública ou privada, voltado sempre para gestão e controle público dos serviços de transportes sobre trilhos.

    Essa reorganização, proporcionaria um transporte sobre trilhos público acessível, não só aos grandes produtores de commodities, mas também às empresas que necessitam dos serviços de transportes para pequenos e médios volumes produzidos e para cidades que precisam dos serviços de transportes de passageiros de maior capacidade.

    Com um modelo de gestão pública e integrada, este Setorial acredita que o Brasil pode garantir um transporte metroferroviário de qualidade, atendendo cargas e passageiros, ao mesmo tempo em que promove a sustentabilidade, o desenvolvimento econômico, a integração e a segurança nacional, além da melhoria da logística municipal, regional e nacional.

    Brasília-DF, 06 de novembro de 2024.

    SETORIAL NACIONAL DE LOGÍSTICA, TRANSPORTES E MOBILIDADE URBANA

    DO PARTIDO DOS TRABALHADORES


    [1] Discurso do Presidente Lula na abertura da 2ª sessão de líderes do G20, no Rio de Janeiro-RJ, em 18/11/2024, disponível em https://www.cartacapital.com.br/politica/a-globalizacao-neoliberal-fracassou-o-discurso-de-lula-na-abertura-da-2a-sessao-de-lideres-do-g20/.

  • Reestatização de Serviços Públicos: Exemplos e Impactos

    Nas últimas décadas, diversos países, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, passaram por processos de privatização de serviços públicos essenciais, como água, energia e transporte. Contudo, insatisfações com a qualidade dos serviços e aumentos tarifários levaram muitas dessas nações a reverterem essas privatizações, retornando os serviços à gestão pública. A seguir, destacam-se alguns exemplos significativos:

    Alemanha: Reestatização do Setor Energético

    A Alemanha lidera o movimento de reestatização, com 81% dos 347 serviços que retornaram à administração pública pertencentes ao setor elétrico. Cidades como Hamburgo e Berlim readquiriram suas redes de energia, motivadas por críticas à gestão privada, incluindo aumentos tarifários e falta de investimentos em infraestrutura.

    França: Gestão Pública da Água

    Na França, 69% das 153 reestatizações ocorreram no fornecimento de água. Paris é um caso emblemático: em 2008, a cidade optou por não renovar a concessão com empresas privadas, criando a Eau de Paris para assumir o serviço. A decisão foi impulsionada por auditorias que apontaram tarifas elevadas e falta de transparência na gestão privada.

    Estados Unidos: Reversão de Privatizações

    Embora sejam referência em privatizações, os EUA reestatizaram 67 serviços entre 2000 e 2017, incluindo contratos de água e energia em estados como Flórida, Havaí, Minnesota, Texas, Nova York e Indiana. Essas ações foram motivadas por insatisfações com a qualidade dos serviços e aumentos de preços sob gestão privada.

    Reino Unido: Transporte Público

    O Reino Unido, pioneiro em privatizações, também reviu algumas concessões. Em 2010, a Transport for London (TfL) readquiriu contratos de expansão do metrô que estavam sob gestão privada, devido a problemas de eficiência e custos elevados.

    Controle Social e Participação dos Usuários

    A reestatização desses serviços frequentemente vem acompanhada de mecanismos de controle social, visando garantir transparência e eficiência. No caso de Paris, a Eau de Paris implementou conselhos consultivos com participação de representantes da sociedade civil, usuários e funcionários, permitindo que os cidadãos influenciem decisões sobre tarifas, investimentos e qualidade do serviço.

    Na Alemanha, algumas cidades estabeleceram conselhos de supervisão com membros eleitos pela comunidade, assegurando que as operações das empresas de energia atendam às necessidades locais e promovam a sustentabilidade.

    Esses exemplos demonstram uma tendência global de reavaliar a privatização de serviços públicos, buscando modelos que equilibrem eficiência operacional com responsabilidade social e participação cidadã.

    O que temos sobre a Ásia, África e Oceania?

    Nas últimas décadas, diversos países ao redor do mundo, incluindo na Ásia, África e Oceania, embarcaram em processos de privatização de serviços públicos essenciais, como água, energia e transporte. No entanto, experiências negativas, como aumento de tarifas, queda na qualidade dos serviços e falta de investimentos, levaram muitas nações a reverter essas privatizações, retornando os serviços à gestão pública. A seguir, destacam-se exemplos significativos dessas reestatizações e as medidas de controle social implementadas para assegurar a participação da sociedade na gestão pública.

    África: Reestatização de Serviços de Água e Energia

    Na África Subsaariana, a privatização de serviços de água e energia, promovida por instituições financeiras internacionais nas décadas de 1980 e 1990, não alcançou os resultados esperados. A falta de interesse de investidores privados e a priorização do lucro em detrimento de objetivos sociais resultaram em serviços caros e de baixa qualidade. Como resposta, diversos países optaram por reestatizar esses serviços. Por exemplo, em Gana, a gestão da eletricidade foi revertida para o controle público após a privatização não conseguir melhorar a eficiência e a cobertura do serviço.

    Ásia: Reversão de Privatizações no Setor de Água

    Na Ásia, países como a Índia enfrentaram desafios semelhantes. Em cidades como Mumbai, a privatização dos serviços de água levou a aumentos significativos nas tarifas e à exclusão de comunidades de baixa renda. A pressão popular e os movimentos sociais resultaram na retomada desses serviços pelo setor público, visando garantir acesso universal e tarifas justas.

    Oceania: Reestatização de Serviços de Transporte

    Na Austrália, a privatização de serviços de transporte público em cidades como Melbourne e Sydney enfrentou críticas devido à deterioração da qualidade do serviço e ao aumento das tarifas. Como resultado, houve movimentos para reestatizar esses serviços ou implementar modelos híbridos de gestão, combinando controle público com operação privada sob regulamentação rigorosa.

    Medidas de Controle Social e Participação da Sociedade

    A reestatização desses serviços frequentemente vem acompanhada da implementação de mecanismos de controle social, visando garantir transparência, eficiência e a participação ativa da sociedade na gestão pública. Essas medidas incluem:

    • Conselhos Consultivos: Formação de conselhos com representantes da sociedade civil, usuários e funcionários, permitindo que os cidadãos influenciem decisões sobre tarifas, investimentos e qualidade do serviço.
    • Audiências Públicas: Realização de audiências para discutir planos e políticas relacionadas aos serviços públicos, assegurando que as vozes da comunidade sejam ouvidas e consideradas.
    • Transparência e Acesso à Informação: Disponibilização de informações detalhadas sobre a gestão dos serviços, incluindo relatórios financeiros e de desempenho, para que a sociedade possa acompanhar e fiscalizar as operações.
    • Mecanismos de Reclamação e Feedback: Estabelecimento de canais acessíveis para que os usuários possam registrar reclamações, sugestões e feedback, contribuindo para a melhoria contínua dos serviços.

    Essas iniciativas fortalecem a governança democrática e asseguram que os serviços públicos atendam às necessidades e expectativas da população, promovendo a responsabilidade e a transparência na gestão pública.

  • Xote da Mobilidade

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  • Programa de Otimização de Rodovias: Avanços e Impactos Econômicos

    O evento destacou o lançamento do Programa de Otimização de Contratos de Concessão de Rodovias, uma iniciativa inovadora do governo federal para destravar investimentos, solucionar impasses históricos e modernizar a infraestrutura rodoviária do Brasil. Sob a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do ministro dos Transportes Renan Filho, do presidente do Tribunal de Contas da União (TCU) Bruno Dantas e do presidente da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), Marco Aurélio Barcelos, foram ressaltados avanços significativos no setor.

    Pilares do Programa de Otimização

    1. Revisão Contratual Consensual: A proposta central é revisar contratos de concessão rodoviária em situação de desequilíbrio financeiro e operacional, evitando judicializações e litígios prolongados. O objetivo é ajustar prazos, tarifas e cronogramas de obras para garantir viabilidade econômica e benefícios ao usuário.
    2. Aceleração de Investimentos: Com a otimização de 14 contratos, estão previstos R$ 110 bilhões em investimentos, fomentando obras essenciais e gerando até 1,6 milhão de empregos diretos e indiretos.
    3. Impacto em Infraestrutura: O programa destrava projetos paralisados, como duplicações de rodovias, construção de anéis viários, melhorias em pavimentos e ampliação de acessos, priorizando a segurança e a logística nacional.
    4. Transparência e Governança: A metodologia inclui leilões transparentes e supervisão técnica rigorosa, com a participação do TCU, garantindo que novas empresas possam concorrer para oferecer melhores condições aos cidadãos.

    Destaques das Falas das Autoridades Presentes

    Ministro Renan Filho:

    • Transformação Nacional: Apontou que as rodovias otimizadas estão concentradas em regiões economicamente estratégicas, como São Paulo, Minas Gerais e Bahia, onde as obras destravadas impulsionarão o desenvolvimento local.
    • Eficiência Econômica: Ressaltou que a duplicação de rodovias e redução de custos logísticos geram efeito multiplicador na economia.
    • Modelo Inovador: Explicou o caráter técnico e consensual do programa, que inclui novos parâmetros contratuais levados a leilão, permitindo maior vantajosidade para o poder público e a sociedade.

    Presidente da ABCR – Associação Brasileira das Concessionárias de Rodovias, Marco Aurélio Barcelos:

    • Momento Histórico: Destacou que o Brasil lidera mundialmente o mercado de concessões rodoviárias, com um salto de 30 mil para 60 mil quilômetros de rodovias concedidas nos próximos cinco anos.
    • Qualidade e Tecnologia: Sublinhou avanços em governança regulatória e o fortalecimento do ambiente institucional brasileiro, que atrai investidores globais.
    • Impacto Econômico: Previu a mobilização de R$ 150 bilhões, consolidando o Brasil como referência em infraestrutura rodoviária.

    Presidente do TCU Bruno Dantas:

    • Resolução de Conflitos: Enfatizou a criação da Secretaria de Soluções Consensuais para promover a revisão de contratos com foco no interesse público, priorizando tarifas acessíveis e serviços de qualidade.
    • Superação de Barreiras: Criticou a inércia de modelos anteriores, que privilegiavam judicializações, e elogiou o consenso como ferramenta para destravar investimentos e modernizar contratos fracassados.
    • Código do Fracasso: Rejeitou práticas que atrasam decisões e defendeu uma gestão pública proativa, que coloque o cidadão no centro das políticas.

    Presidente Luiz Inácio Lula da Silva:

    • Compromisso com a Governança: Destacou a importância de devolver o Brasil à estabilidade democrática e ao progresso econômico, com previsibilidade e eficiência nos investimentos.
    • Mudança de Paradigma: Ressaltou que concessões devem priorizar o usuário, com tarifas justas e serviços eficientes, em vez de apenas gerar recursos para o Estado.
    • Alinhamento Estratégico: Reconheceu o impacto do programa como um marco na infraestrutura brasileira e um exemplo de governança para o mundo, promovendo integração entre investimentos públicos e privados.

    Impactos Regionais e Setoriais

    • O programa atinge rodovias estratégicas como a BR-381 em Minas Gerais, a BR-101 no Espírito Santo e a Via Bahia, entre outras, com projetos que incluem duplicações, melhoria de pavimentos e adequações estruturais.
    • Estados como Bahia, Minas Gerais e São Paulo concentram grandes volumes de investimentos, alcançando até R$ 60 bilhões em obras essenciais no caso mineiro.

    Perspectivas Futuras

    O Programa de Otimização de Contratos de Concessão de Rodovias representa um divisor de águas no setor de infraestrutura do Brasil, equilibrando os interesses de concessionárias, governo e sociedade. A iniciativa projeta um futuro em que rodovias mais seguras, eficientes e integradas fomentarão o desenvolvimento econômico e social do país.

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  • Pedágios Urbanos: Nova York Segue o Exemplo Europeu

    A implementação de pedágios urbanos tem sido uma estratégia adotada por algumas metrópoles ao redor do mundo para mitigar congestionamentos, reduzir emissões de poluentes e viabilizar recursos financeiros para melhorar a mobilidade urbana. Recentemente, Nova York aprovou um plano para introduzir tal medida em Manhattan, seguindo os exemplos de cidades como Londres e Estocolmo.

    Proposta de Pedágio Urbano em Nova York

    Em novembro de 2024, a Autoridade de Transporte Metropolitano (MTA) de Nova York aprovou a implementação de pedágio urbano em Manhattan, com início previsto para janeiro de 2025. A medida visa a reduzir o tráfego na área central da cidade e arrecadar fundos para melhorias no sistema de transporte público. Espera-se que a cobrança varie entre US$ 9 e US$ 23 por veículo, dependendo do horário e do tipo de veículo, com caminhões comerciais podendo pagar até US$ 82.

    Experiências Internacionais com Pedágios Urbanos

    • Londres: Em 2003, Londres implementou a “Congestion Charge”, uma taxa aplicada a veículos que circulam no centro da cidade durante dias úteis. A medida resultou em uma redução significativa do tráfego e das emissões de poluentes na área central. Além disso, houve um aumento no uso de transporte público e bicicletas.
    • Estocolmo: A capital sueca introduziu um sistema de pedágio urbano em 2007, após um período de testes e referendo popular. A iniciativa levou a uma diminuição de aproximadamente 20% no tráfego e reduziu as emissões de CO₂ na região central. A receita gerada foi investida em melhorias no transporte público.

    Reações da População e Opinião Pública

    A introdução de pedágios urbanos geralmente enfrenta resistência inicial da população, principalmente devido a preocupações com custos adicionais e possíveis impactos econômicos. Em Londres, por exemplo, houve oposição significativa antes da implementação. No entanto, com o tempo, à medida que os benefícios se tornaram evidentes, como a redução do congestionamento e a melhoria da qualidade do ar, a aceitação pública aumentou. Atualmente, a medida é amplamente reconhecida como eficaz.

    Comparação entre Nova York e Modelos Europeus

    O modelo proposto por Nova York apresenta semelhanças com os implementados em Londres e Estocolmo, especialmente no que tange à cobrança de taxas para veículos que acessam áreas centrais com o objetivo de reduzir o tráfego e financiar melhorias no transporte público. No entanto, as especificidades, como os valores das taxas e os horários de aplicação, variam conforme as características e necessidades de cada cidade. Enquanto Londres aplica a taxa durante dias úteis, Nova York planeja uma estrutura tarifária que considera diferentes horários e tipos de veículos.

    Em suma, a adoção de pedágios urbanos tem se mostrado uma ferramenta eficaz para enfrentar desafios de mobilidade e sustentabilidade em grandes centros urbanos. A experiência de cidades europeias oferece insights valiosos para a implementação bem-sucedida dessa medida em Nova York.

    No Brasil

    A implementação de pedágios urbanos tem sido objeto de discussão em diversas esferas governamentais, tanto no âmbito federal quanto estadual e municipal.

    No Congresso Nacional: Atualmente, não há registro de projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional que visem à implantação de pedágios urbanos em âmbito nacional. No entanto, a Lei nº 12.587, de 3 de janeiro de 2012, que institui as diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana, autoriza os municípios a implementarem a cobrança pelo uso viário urbano, incluindo pedágios urbanos, como instrumento para desestimular o uso de veículos particulares e promover o transporte coletivo.

    Nas Assembleias Legislativas Estaduais e na Câmara Legislativa do Distrito Federal: Não há informações disponíveis sobre projetos de lei específicos em tramitação nas assembleias legislativas estaduais ou na Câmara Legislativa do Distrito Federal que proponham a implantação de pedágios urbanos. A competência para instituir tais cobranças geralmente recai sobre os municípios, conforme estabelecido na Política Nacional de Mobilidade Urbana.

    Nas Câmaras Municipais: Algumas cidades brasileiras já discutiram ou implementaram medidas relacionadas a pedágios urbanos. Por exemplo, em 2012, a Câmara Municipal de São Paulo debateu a possibilidade de instituir uma cobrança para veículos que circulassem na região central da cidade, com o objetivo de reduzir congestionamentos e incentivar o uso do transporte público. Entretanto, tais iniciativas enfrentam resistência e debates intensos sobre sua viabilidade e impacto social.

    No Ministério das Cidades: O Ministério das Cidades, responsável pela formulação e implementação de políticas públicas de desenvolvimento urbano e mobilidade, não possui, até o momento, projetos específicos para a implantação de pedágios urbanos. Contudo, o ministério apoia os municípios na elaboração de seus Planos de Mobilidade Urbana, que podem incluir, entre outras medidas, a implementação de instrumentos de gestão da demanda por transporte, como os pedágios urbanos, desde que alinhados às diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana.

    Em resumo, embora a legislação federal permita que os municípios adotem pedágios urbanos como instrumento de política pública, a efetiva implementação dessas medidas depende de iniciativas locais e enfrenta debates sobre sua eficácia e aceitação pela população.

    Pesquisa de opinião no Brasil

    Existem pesquisas de opinião que avaliam a percepção da população brasileira sobre a implementação de pedágios urbanos. Uma pesquisa realizada em outubro de 2006 pelo Instituto Synovate Brasil, encomendada pela Associação Brasileira de Monitoramento e Controle Eletrônico de Trânsito (Abramcet), revelou insights significativos:

    • Conhecimento sobre o tema: Apenas 37% dos paulistanos, entre motoristas e pedestres, já haviam ouvido falar sobre pedágio urbano.
    • Avaliação da medida: 43% dos brasileiros e 48% dos paulistanos avaliaram o pedágio urbano de forma negativa.
    • Percepção de benefícios: 28% dos entrevistados reconheceram que a redução do fluxo veicular seria um benefício potencial da medida.
    • Principais preocupações: 58% apontaram o aumento das despesas dos motoristas como o principal prejuízo associado ao pedágio urbano.

    Esses dados indicam que, na época da pesquisa, havia um alto índice de desconhecimento sobre o pedágio urbano e uma percepção predominantemente negativa entre os entrevistados. As principais preocupações estavam relacionadas ao aumento de custos para os motoristas, embora uma parcela reconhecesse possíveis benefícios na redução do congestionamento.

    O que dizem as principais entidades de transporte?

    A implementação de pedágios urbanos tem sido objeto de discussão em diversas esferas no Brasil, envolvendo entidades como a Confederação Nacional do Transporte (CNT), a Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), a Associação Nacional dos Prefeitos e Vice-Prefeitos da República Federativa do Brasil (ANPV), a Associação Brasileira de Municípios (ABM) e a Fundação Perseu Abramo. Além disso, candidatos recentes às prefeituras de cidades com mais de 500 mil habitantes têm apresentado propostas relacionadas ao tema.

    Confederação Nacional do Transporte (CNT): A CNT tem abordado o pedágio urbano como uma possível solução para os desafios de mobilidade nas grandes cidades brasileiras. Em seus estudos, a entidade destaca a necessidade de investimentos em infraestrutura e a busca por alternativas que melhorem o fluxo de trânsito e reduzam os congestionamentos. No entanto, a CNT também ressalta a importância de avaliar os impactos socioeconômicos de medidas como o pedágio urbano, considerando a realidade de cada município.

    Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP): A ANTP tem se posicionado favoravelmente à discussão sobre o pedágio urbano como instrumento de gestão de mobilidade. Em publicações e eventos, a associação apresenta experiências internacionais, como as de Londres e Estocolmo, que implementaram com sucesso sistemas de cobrança para acesso a áreas centrais, resultando em redução de congestionamentos e melhoria da qualidade do ar. A ANTP enfatiza que, para a efetividade da medida, é fundamental que os recursos arrecadados sejam reinvestidos no transporte público e em infraestrutura urbana.

    Associação Nacional dos Prefeitos e Vice-Prefeitos da República Federativa do Brasil (ANPV): A ANPV tem promovido debates sobre políticas públicas municipais, incluindo a possibilidade de adoção de pedágios urbanos. A entidade destaca a autonomia dos municípios para implementar soluções que atendam às suas especificidades, mas também alerta para a necessidade de estudos aprofundados e participação popular nas decisões, visando à aceitação e eficácia das medidas propostas.

    Associação Brasileira de Municípios (ABM): A ABM tem incentivado a troca de experiências entre os municípios sobre práticas de mobilidade urbana. Em seus fóruns, a associação discute alternativas para a melhoria do trânsito nas cidades, incluindo o pedágio urbano. A ABM ressalta que, para a implementação de tal medida, é imprescindível um planejamento integrado que considere aspectos sociais, econômicos e ambientais, além de garantir transparência na aplicação dos recursos arrecadados.

    Fundação Perseu Abramo: A Fundação Perseu Abramo, ligada ao Partido dos Trabalhadores, tem realizado estudos e debates sobre políticas urbanas e de mobilidade. Em suas publicações, a fundação analisa o pedágio urbano como uma ferramenta potencial para a gestão do trânsito, mas enfatiza a necessidade de que a medida seja acompanhada de investimentos robustos em transporte público de qualidade, garantindo que a população tenha alternativas viáveis ao uso do automóvel particular.

    Artigos Relevantes sobre Pedágio Urbano nos Últimos Cinco Anos: Diversos artigos têm sido publicados abordando o tema do pedágio urbano no contexto brasileiro. Um estudo exploratório em Belo Horizonte avaliou a adesão da população à medida, destacando os desafios e oportunidades para sua implementação. Outro artigo analisou a experiência de Santiago, no Chile, que implementou um sistema de pedágio urbano com resultados positivos na redução de congestionamentos.

    Comparação entre Propostas e Experiências: As propostas e discussões sobre pedágio urbano no Brasil refletem a busca por soluções para os problemas de mobilidade nas grandes cidades. Enquanto entidades como a ANTP e a ABM veem a medida como uma ferramenta viável, desde que acompanhada de investimentos em transporte público, outras, como a CNT, enfatizam a necessidade de cautela e avaliação dos impactos socioeconômicos. As experiências internacionais, como as de Londres e Santiago, demonstram que o pedágio urbano pode ser eficaz na redução de congestionamentos, mas requer planejamento cuidadoso e consideração das particularidades locais.

    Em suma, o debate sobre o pedágio urbano no Brasil é complexo e multifacetado, envolvendo aspectos técnicos, sociais e políticos. A implementação de tal medida exige estudos aprofundados, participação popular e, sobretudo, investimentos consistentes em alternativas de transporte público de qualidade. Que serão conseguidos, com os recursos dos pedágios urbanos, ou não?

  • Licitação do Transporte Aquaviário no RJ: O que Esperar?

    A licitação pública para a PRESTAÇÃO DE SERVIÇO ESPECIAL QUE GARANTA O APOIO
    TÉCNICO NECESSÁRIO AO SERVIÇO PÚBLICO DE TRANSPORTE AQUAVIÁRIO DE
    PASSAGEIROS NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (SPTA), com dedicação exclusiva de
    mão-de-obra, conforme detalhamento constante no Termo de Referência e seus respectivos anexos, representa um marco importante na modernização e melhoria desse sistema, fundamental para a mobilidade urbana em áreas que dependem das barcas, como Niterói, Ilha do Governador, Paquetá, Ilha Grande e Mangaratiba.

    O processo promete não apenas melhorar a qualidade do serviço, mas também enfrentar desafios históricos, como a transição entre operadoras e a necessidade de manter a sustentabilidade financeira e operacional. Neste texto, destacamos os principais pontos de interesse para os usuários em geral e os possíveis problemas que podem surgir a partir dessa concessão, com base nas informações dos documentos analisados – Termo de Referência, Minuta de Contrato e Plano de Transição.

    Principais Pontos de Interesse para Todos os Usuários

    1. Melhoria na Infraestrutura e Atendimento

    Um dos objetivos centrais dessa licitação é promover melhorias na infraestrutura do transporte aquaviário. As embarcações devem ser modernizadas, assim como as estações de embarque e desembarque, garantindo mais conforto e segurança para os passageiros. A adoção de sistemas de videomonitoramento em tempo real e de rastreamento por GPS são exemplos de inovações tecnológicas que visam a oferecer maior confiabilidade nos horários e trajetos das embarcações. Essas inovações representam um avanço importante na qualidade do serviço, algo que beneficia a todos os usuários, independentemente da frequência ou motivo de utilização.

    2. Integração com Outros Modais de Transporte

    Outro ponto de destaque é a integração do sistema de barcas com outros modais de transporte, como o metrô, ônibus e trens. A interoperabilidade entre esses sistemas será facilitada por tecnologias de bilhetagem digital, como o já existente sistema de cartões integrados, permitindo uma maior fluidez nas conexões de transporte. Essa integração é essencial para facilitar o deslocamento diário de quem mora em municípios atendidos pelas barcas e trabalha ou realiza atividades nas áreas centrais do Rio de Janeiro.

    3. Compromisso com a Sustentabilidade Ambiental

    O uso do transporte aquaviário tem vantagens ambientais consideráveis, pois ajuda a reduzir o número de veículos nas vias terrestres, diminuindo o tráfego e, consequentemente, as emissões de gases poluentes. Isso é especialmente relevante para quem vive ou trabalha em áreas com altos níveis de congestionamento, como aqueles que precisam cruzar a Ponte Rio-Niterói diariamente. A expansão e modernização das barcas podem contribuir significativamente para a sustentabilidade urbana, melhorando a qualidade do ar e reduzindo o impacto ambiental da mobilidade.

    4. Novos Padrões de Serviço e Conforto

    Com a nova concessão, são definidos indicadores de qualidade que deverão ser cumpridos pela operadora, como o Índice de Qualidade do Serviço (IQS) e o Índice de Cumprimento de Programação de Viagens nos Picos (ICPVp). Esses índices são projetados para garantir que os horários das embarcações sejam cumpridos e que os passageiros desfrutem de um serviço confiável e de alta qualidade. A operadora também será avaliada regularmente, e as falhas no cumprimento desses indicadores poderão resultar em penalidades financeiras, o que serve de incentivo para manter um padrão elevado de serviço.

    Possíveis Problemas e Desafios na Implementação

    1. Possível Aumento de Tarifas

    Embora a melhoria no serviço seja o objetivo central da licitação, há a possibilidade de que o custo dessas melhorias seja repassado aos usuários na forma de aumento das tarifas. O contrato prevê que a concessionária possa solicitar a repactuação dos preços após um ano de operação, em função de mudanças nos custos operacionais, como aumento de insumos ou de mão de obra. Isso pode gerar preocupações, especialmente para aqueles que utilizam o sistema de forma regular, pois qualquer elevação no preço das passagens impacta diretamente no orçamento diário.

    2. Desafios na Transição de Operadoras

    A transição entre a atual operadora, a CCR Barcas, e a nova concessionária vencedora da licitação é um dos momentos mais delicados desse processo. Segundo o Plano de Transição, essa mudança deve ocorrer ao longo de três meses, período em que a CCR Barcas continuará a operar, enquanto o novo operador aprenderá sobre a gestão e operação do serviço. Esse processo de transição precisa ser bem executado para evitar qualquer interrupção ou falha no atendimento ao público, o que poderia causar transtornos aos usuários. Reuniões periódicas entre as partes envolvidas foram planejadas para garantir que tudo ocorra de maneira ordenada.

    3. Sustentabilidade Financeira da Nova Operadora

    Outro ponto de atenção é a sustentabilidade financeira da nova concessionária. O contrato de concessão tem duração de cinco anos, com possibilidade de prorrogação por mais cinco, totalizando até dez anos de operação. Entretanto, se a operadora enfrentar dificuldades financeiras ou operacionais, isso pode impactar negativamente a prestação do serviço. Caso a concessionária não consiga cumprir suas obrigações financeiras, há risco de interrupções, greves ou falhas na manutenção das embarcações. Isso pode prejudicar diretamente os usuários que dependem desse modal para seus deslocamentos diários​.

    4. Impactos Ambientais e Patrimoniais

    O contrato de concessão também exige que o novo operador cuide adequadamente dos ativos revertidos ao Estado, como as embarcações, terminais e estaleiros, que anteriormente pertenciam à CCR Barcas. O Plano de Transição detalha a responsabilidade do novo operador em garantir a manutenção e o bom estado desses ativos. No entanto, o impacto ambiental da operação é outro ponto a ser considerado, especialmente em áreas sensíveis, como Ilha Grande e Paquetá, que têm um patrimônio natural relevante. É necessário que o operador siga as regulamentações ambientais e mantenha práticas sustentáveis para evitar danos.

    5. Problema crítico ainda sem solução

    O edital de licitação para a operação das barcas Rio-Niterói, publicado em outubro de 2024, não especifica a necessidade de adequar os terminais para permitir o embarque e desembarque simultâneo de passageiros nos dois andares das embarcações existentes. As principais mudanças previstas no edital incluem a remuneração do operador com base nas milhas náuticas percorridas e a destinação da receita das tarifas ao governo estadual, que será responsável pela fiscalização e definição de investimentos futuros.

    Além disso, o edital menciona a possibilidade de criação de novas linhas, como a Paquetá-Cocotá e a linha social Charitas-Praça XV, cuja operação e valor da tarifa serão definidos em conjunto com a Prefeitura de Niterói. No entanto, não há menção específica sobre a adequação dos terminais para facilitar o acesso ao segundo andar das embarcações.

    Portanto, não há previsão ou prazo estabelecido no edital para a realização de tais adequações nos terminais do Rio de Janeiro e de Niterói.

    Detalhes Financeiros e Operacionais do Contrato

    1. Remuneração Baseada em Milhas Náuticas Navegadas

    A remuneração da nova concessionária será calculada com base no número de milhas náuticas navegadas, um modelo que incentiva a eficiência e a regularidade na prestação do serviço. No entanto, o contrato também prevê que, caso a operadora não atenda aos níveis de qualidade exigidos, haverá descontos em sua remuneração. Para os usuários, isso pode ser uma garantia de que a empresa fará o possível para cumprir as metas estabelecidas e manter a qualidade do serviço.

    2. Auditorias e Transparência

    A concessionária será submetida a auditorias regulares para garantir que a receita arrecadada com as tarifas pagas pelos passageiros seja devidamente contabilizada e que os indicadores de qualidade estejam sendo respeitados. Essa transparência no processo é positiva para os usuários, pois garante que o serviço prestado está sendo fiscalizado adequadamente e que os problemas serão corrigidos caso surjam.

    Conclusão

    A licitação para a concessão do serviço de transporte aquaviário no Estado do Rio de Janeiro traz perspectivas de melhorias significativas para todos os usuários, com infraestrutura modernizada, mais conforto, integração eficiente com outros modais e uma operação mais sustentável. No entanto, desafios como o possível aumento de tarifas e a transição entre concessionárias podem causar preocupações, especialmente no que diz respeito à continuidade do serviço e à manutenção de padrões de qualidade.

    Para o usuário que depende do transporte aquaviário para seu deslocamento diário ou ocasional, o sucesso dessa licitação será medido pela capacidade da nova operadora de oferecer um serviço confiável, acessível e de alta qualidade. Ao mesmo tempo, o acompanhamento rigoroso por parte do governo, e das entidades da sociedade organizada, será essencial para garantir que os compromissos assumidos sejam cumpridos e que o transporte aquaviário continue a ser uma alternativa eficiente e sustentável na mobilidade urbana da região.

    Clique aqui para acessar o EDITAL_SPTA_2024_10_10_V1_assinado