Em análise anterior, sobre a situação da exportação de açúcar (clique aqui), mostrei com dados verificáveis que não há crise portuária em Santos, como veiculado em matéria de capa do Valor Econômico, e em comentário do Sardenberg na Rádio CBN.
Hoje mostrarei que a matéria e o comentário na CBN também se equivocaram em relação ao Porto de Paranaguá.
A matéria do Valor dizia que 28 navios aguardavam na fila do Porto de Paranaguá. Isso no dia anterior ao da publicação, ou seja, em 12/7/10.
Agora já tenho acesso aos dados do porto (clique aqui se vc for cadastrado) e passarei para vocês as informações de hoje (15/7/10).
. Navios ao largo: 43
. Navios ao largo para embarque de açúcar: 17
Como se vê, são apenas 17 navios aguardando para embarque de açúcar e não 28 como diz a matéria. É impossível que a fila tenha reduzido de 28 para 17 navios em apenas três dias.
Em relação a tempo de espera, temos a seguinte distribuição:
. 1 navio com espera de 2 dias
. 3 com espera de 6 a 10 dias
. 7 com espera de 11 a 15 dias
. 6 com espera de 16 a 20 dias
Considerando, como diz a matéria, que é normal uma espera de 12 a 15 dias, podemos afirmar que:
24% dos navios (4 em 17) estão com tempo de espera abaixo da média
41% dos navios (7 em 17) estão na média
Apenas 35% dos navios (6 em 17) estão acima da média
É importante ressaltar que a matéria informa que o tempo de espera – em Santos e em Paranaguá – está chegando a 30 dias. Não é verdade.
O maior tempo de espera em Paranaguá está em 20 dias e, em Santos, 22 dias. No dia 12 era de 17 e 19 dias, respectivamente.
Isso apesar de uma situação excepcional de sobre-demanda internacional por açúcar, combinada com chuvas que obrigam a paralisação do embarque quando ocorrem.
Que situação excepcional é essa?
Como visto em matéria do Valor, publicada neste T1 (clique aqui), os mercados que hoje mais demandam açúcar em regime de urgência são Canadá, Arábia Saudita e o Norte da África. “As refinarias que têm o Brasil como fornecedor costumam manter estoques baixos, pois sabem que no momento em que precisarem, conseguirão produto sem dificuldades. Mas nos deparamos com uma concentração de demanda dessa magnitude e, agora, com chuvas”.
Essa matéria mostra o esforço gigantesco que está sendo feito pelos portos brasileiros para atender essa sobre-demanda
Para se ter uma ideia do quanto os terminais de açúcar forçam seus limites para embarcar o produto, de 1 a 13 de julho, todos os terminais brasileiros embarcaram 1,1 milhão de toneladas, uma média de 86 mil toneladas por dia. Nos 31 dias de julho de 2009, foram exportadas 1,68 milhão de toneladas – 54 mil toneladas diárias, segundo a Kingsman do Brasil.
“Estamos no limite em todo o sistema logístico. As usinas carregam açúcar em caminhões 24 horas por dia, quando o normal é apenas pela manhã. As rodovias também padecem de situação extrema”, disse Souza.
Segundo a Associação do Transporte Rodoviário do Brasil (ATR), que tem foco em cargas do agronegócio, faltam caminhões para levar açúcar das regiões produtoras até Santos.
“Precisaríamos de 20% a 25% mais caminhões para atender toda a necessidade açucareira. Por conta dessa concentração, desde junho os fretes aumentaram 10%”, diz Rogério Martins, diretor da ATR.
Elaborar juízo de valor negativo sobre o sistema portuário brasileiro, com base em situações excepcionais, que dificilmente se repetirão, na minha opinião é má-fé e não ajuda em nada para o diagnóstico correto sobre a logística de granéis, cujo principal problema é a insuficiência de silos, especialmente nas regiões produtoras, para regular o fluxo dessa cargas em direção aos portos.
O BNDES tem uma linha de financiamento para essas estruturas (Moderinfra), mas os embarcadores não têm demonstrado interesse em acelerar as respectivas construção e operação.
Precisamos elaborar diagnósticos bem fundamentados, sobre a logística de granéis e de contêineres, se quisermos cobrar, com rigor, o que cabe aos governos e o que cabe à iniciativa privada.
Fazer política partidária com esse assunto é um desserviço ao país.
José Augusto Valente é Diretor Técnico do T1
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