Infelizmente para o país, até este ano, só tínhamos a Pesquisa Rodoviária CNT como referência para avaliação das condições das rodovias brasileiras.
Digo “infelizmente” porque é inadmissível para um país, uma das maiores economias do mundo, não ter um órgão de governo que realize uma avaliação periódica dos seus sistemas de transportes e, principalmente, da sua logística de cargas e de passageiros.
O máximo que temos é um quadro das condições das rodovias federais (clique aqui), no site do DNIT, que cumpre um papel importante para os usuários das rodovias, em seus deslocamentos, mas sem valor para o planejamento das ações do órgão.
A partir de agora, teremos o levantamento periódico do DNIT, para avaliação das rodovias federais sob a gestão do DNIT, conhecido tecnicamente como Levantamento Visual Contínuo – LVC (clique aqui para ler matéria que publicamos a respeito), com base na Norma DNIT 008/2003 (clique aqui para conhecê-la em detalhes).
O objetivo do LVC é avaliar e quantificar o nível de defeitos da pista para a obtenção do Índice de Irregularidade (IRI), que serve de referência para medir o conforto do usuário na via e as necessárias intervenções a serem feitas em função dessas medições.
Do ponto de vista de pesquisa sobre a malha nacional, a CNT ainda será a referência, porque também visita parte das malhas estaduais e as rodovias sob concessão. É um olhar do usuário, enquanto que a do DNIT é um olhar do órgão gestor. Mas ter um levantamento sistemático e com metodologia adequada, feito pelo principal órgão de gestão rodoviária, já é um grande avanço.
Tanto a pesquisa da CNT como o levantamento do DNIT são levantamentos visuais. As principais diferenças são:
a) a pesquisa da CNT avalia ligações ou trechos rodoviários, constituídos por uma ou mais rodovias, federais e/ou estaduais. O levantamento do DNIT considera apenas as rodovias federais, excluídas as que estão sob concessão;
b) A pesquisa CNT avalia pavimento, sinalização e geometria da via. O levantamento do DNIT avalia exclusivamente as condições dos pavimentos flexíveis e semi-rígidos mas, por outro lado, com um nível de detalhamento muito maior do que o da CNT;
c) a pesquisa da CNT é realizada em, no máximo, dois meses. O levantamento do DNIT será feito durante 18 meses em toda a malha rodoviária sob responsabilidade do DNIT.
Como temos escrito, reiteradamente, nos últimos seis anos, o grande problema da pesquisa da CNT é a avaliação da geometria das vias. Esta considera que qualquer rodovia – federal ou estadual – deva ter duas pistas, canteiro central largo, curvas horizontais com raios grandes (> 600 m) e rampas verticais suaves (máximo de 3%). Esse é o motivo pelo qual somente as rodovias concedidas em São Paulo são as melhores avaliadas.
E será sempre assim, por causa do relevo predominante no estado e pelo grande volume de tráfego, que exige pista dupla. Minas Gerais e os estados do sul, devido à predominância de relevo ondulado e montanhoso, e o restante do país com volumes de tráfego bem inferiores aos de São Paulo, terão um número bem menor de rodovias duplicadas e um número bem maior de rodovias com raios pequenos (< 450 m) e rampas fortes (entre 4% e 6%).
O resultado dessa avaliação da geometria é que joga para baixo a nota geral dos trechos pesquisados. Assim, tudo que estiver com nota geral inferior a 81 será considerado regular, ruim e péssimo, gerando a falsa idéia de que a malha rodoviária está um lixo. O que não é verdade, como mostra a própria pesquisa da CNT.
Por esse motivo é que eu afirmo que se deva olhar, exclusivamente, para os resultados das pesquisas rodoviárias CNT relativos ao pavimento e à sinalização, já que nenhum órgão rodoviário poderá atender ao padrão de geometria da CNT. Seja porque têm restrições metodógicas, estabelecidas internacionalmente, em relação ao estudo de tráfego, seja pelas restrições econômicas e financeiras conjunturais e estruturais, que, ademais, são observadas em todos os países do mundo.
Escreveremos muito sobre esse tema nos próximos dias, até a publicação da Pesquisa Rodoviária CNT 2010, que é feita entre agosto e setembro.
José Augusto Valente – Diretor Técnico do T1
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