Abaixo, apresento o artigo do Ministro Pedro Brito, da Secretaria Especial de Portos, com o qual concordo plenamente, com inúmeros posts publicados sob o marcador “Em defesa e pelo fortalecimento dos portos públicos”.
Esse artigo foi publicado no jornal Valor Econômico do dia 6/4/2010
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O porto público, hoje, é explorado pela iniciativa privada por meio de concessões tipificadas como arrendamentos.
O debate travado acerca do marco regulatório do setor portuário tem inspirado polêmicas e, na esteira delas, importantes reflexões acadêmicas e práticas. Há poucos dias, o professor de economia da PUC, Leonardo Rezende, assinou artigo nesta coluna do Valor defendendo que se deveria permitir a livre instalação de novos portos privados no país, o que constituiria, a seu ver, garantia de eficiência econômica.
A intervenção do poder público nos mercados é de fato indesejável e deve ser combatida quando esses funcionam de maneira perfeita. Como escreveu o sempre citado Adam Smith, quando os mercados funcionam corretamente, os agentes econômicos, em busca de seus próprios interesses, tomam decisões que beneficiam toda a sociedade – como se uma “Mão Invisível” organizasse essas decisões “egoístas” em benefício do bem-estar de todos.
Porém, quando um mercado específico não é capaz de gerar os sinais adequados para orientar as decisões privadas, em virtude da existência do que se convencionou chamar de “falhas de mercado”, cabe ao poder público intervir e regular seu funcionamento, de modo a garantir a consecução de interesses coletivos, pois, nessa hipótese, a livre decisão propicia desperdícios de recursos sociais de produção, conforme ensina o professor Dr. Ruy Santacruz, professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense e ex-conselheiro do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
A regulação pública consiste, justamente, em deixar com a iniciativa privada a responsabilidade pela oferta e gestão do serviço, garantindo, dessa maneira, as vantagens inerentes ao sistema de mercado, ao mesmo tempo em que restringe parcialmente as entradas e saídas de empresas do mercado e a autonomia de decisão do empresário, substituindo seu comportamento maximizador de lucros por regras administrativas que garantam um resultado socialmente aceitável.
A atividade portuária, a exemplo dos demais setores de infraestrutura, apresenta traços evidentes de um mercado que demanda regulação para seu adequado funcionamento. Suas atividades são caracterizadas pela elevada escala de produção e por altos níveis de integração, implicando custos fixos de instalação e funcionamento elevados, que impõem uma restrição objetiva ao número de produtores presentes na indústria, em função de critérios estritos de eficiência econômica e bem-estar.
Além da restrição objetiva ao número de participantes, as atividades de infraestrutura de um modo geral são caracterizadas como “indústrias de rede”. Esse tipo de indústria apresenta, em maior ou menor grau, economias de escala, escopo e densidade nas suas operações. Tais atributos das “indústrias de rede” contribuem de forma direta para uma situação de inevitável concentração econômica, uma vez que quanto maior for a produtividade de uma empresa, menor serão seus preços, porque por mais unidades se dividirão os altos custos envolvidos em tal processo.
Em função da presença de economias de rede, a entrada de novas empresas nesses mercados específicos eleva o custo médio, reduzindo a eficiência econômica, a partir de um número de firmas que pode ser tecnicamente definido. É importante notar que, nesses casos, a concentração não é algo a ser combatido nem eliminado. Pelo contrário, a atomização da oferta com a livre entrada no mercado, como solicitam os liberais, como santo remédio para todo e qualquer setor da economia, apenas impediria a captura das mencionadas economias, elevando custos de operação e, por conseguinte, os preços finais cobrados aos usuários, em prejuízo da eficiência econômica social.
Ao contrário do que podem imaginar os liberais contumazes, nos setores que apresentam falhas de mercado importantes e nos setores de infraestrutura em especial, a regulação de mercado existe para possibilitar a operação eficiente, com os menores custos possíveis, garantindo ao mesmo tempo taxas de retorno compatíveis com os elevados investimentos realizados. Por isso, a regulação, nesses casos, passa também pela definição de um número eficiente de ofertantes, capaz de garantir a captura das economias de rede inerentes à atividade, em prol da redução de preços e do interesse da coletividade.
Ademais, a associação de porto público a porto “em mãos estatais” é equivocada. O porto público, hoje, é explorado pela iniciativa privada por meio de concessões tipificadas como arrendamentos. Está, portanto, nas “mãos da iniciativa privada”. Usamos no Brasil o sistema que em todo o mundo é usado e conhecido como “landlord ports”, onde o Estado é o dono das instalações e a iniciativa privada faz a operação portuária. Esse modelo foi implantado pela Lei dos Portos, em 1993, a exemplo dos principais portos europeus, e vem funcionando com níveis de produtividade e eficácia crescentes.
É clara a necessidade de investimentos públicos e privados numa economia em permanente crescimento, onde o fluxo de comércio internacional aumenta ano a ano. A modelagem brasileira não inibe, pelo contrário, ordena e estimula inversões, oferecendo alternativas aos investidores. Não haveria no sistema portuário brasileiro uma carteira de alguns bilhões de dólares de investimentos privados em curso se assim não fosse.
Pedro Brito é ministro da Secretaria de Portos da Presidência da República.
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4 respostas a “Regulação para preservação de interesses coletivos – Artigo do ministro Pedro Brito”

  1. Avatar de Gestão de

    Boa tarde,

    Pedimos desculpa pela abordagem em comentário, mas não encontrámos e-mail de contacto.

    Reconhecendo a importância da gestão de frotas no meio empresarial, o site Gestão de Frotas (www.gestao-frotas.com) surge para demonstrar as potencialidades deste sistema, abordando não só as mais recentes novidades tecnológicas desta área, como o seu meio envolvente.
    O Gestão de Frotas.com pretende tornar-se um site de referência na área, cobrindo as temáticas mais importantes do mercado e acompanhando o percurso dos agentes principais.
    Neste sentido, e reconhecendo a qualidade e importância social do vosso site, gostaríamos de solicitar uma troca de links, que irá beneficiar o vosso site com maior tráfego. Informamos que temos já um número considerável de visitas diárias.

    Agradecemos desde já a vossa colaboração,
    Os nossos melhores cumprimentos,
    http://www.gestao-frotas.com

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  2. Avatar de Luiz Antônio

    têm links não solicitados abrindo quando se acessa esta página:
    http://lp.zazzoo.com/LPxGlispax161x19xBxPL/?clickID=36989411&affiliate=CD5329

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  3. Avatar de Alexandre

    Caro Valente,
    Sou da carreira de técnicos em pesquisa e planejamento do Ipea, atualmente em licença para doutoramento em Administração Pública e Governo na FGV-SP.
    Minha tese de doutorado será sobre a configuração institucional do setor federal de transporte, ou seja, a história política da Lei 10233/2001 explicando os porquês desse setor ter sido criado com 2 agências reguladoras (Antaq e ANTT) mais o Conit, como foi a reestruturação do Dnit e o processo de concessão das rodovias federais.
    Como você é um reconhecido especialista no setor, gostaria de entrevistá-lo a respeito desses assuntos.
    Moro em Brasília e posso me adaptar ao horário e local que você escolher.
    Antecipadamente, agradeço a sua resposta.
    Alexandre Gomide
    aagomide@gmail.com

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  4. Avatar de Thaisy

    Olá,

    faço parte do site do Sérgio Cabral e identifiquei que seu site abordou o tema transportes em algumas postagens (seja ligando o assunto à trânsito em geral, meios de transporte ou sustentabilidade).

    Selecionei veículos com publicações interessantes, frequencia de posts, boa visibilidade e credibilidade para enviar pautas sobre o tema.

    Esta semana: Número de mortos e feridos em acidentes caiu 21,8% em um ano de Lei Seca no trânsito

    Em um ano e dois meses de Operação Lei Seca no Rio, menos 5.037 pessoas foram vítimas de acidentes de trânsito na capital, Região Metropolitana e Baixada Fluminense. De acordo com o porta-voz da Operação Lei Seca no Rio, Carlos Alberto Lopes, a redução aconteceu graças à conscientização dos motoristas, que passaram a evitar dirigir depois de beber. Mais de 98% dos 205.168 motoristas abordados nas blitzes não estavam alcoolizados, segundo a Secretaria de Estado de Governo.

    Para ler na íntegra: http://bit.ly/LeiSecaRJ

    Estou entrando em contato por aqui, mas peço que envie em thaisy@gmail.com seu endereço de e-mail onde poderei mandar pautas diretamente a vc.

    Thaisy Pecsén

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