A matéria “Logística pior tira US$ 3,9 bi do agronegócio”, publicada na Folha de S.Paulo do dia 07 de abril, mostra dados de um estudo, realizado pela Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), que revela prejuízos de US$ 3,88 bilhões causados por problemas no escoamento da produção agrícola, tanto nas exportações quanto na logística interna.
Os problemas de movimentação de cargas do agronegócio, em grande parte, são de responsabilidade dos grandes embarcadores como Bunge, Cargill e Maggi que precisam investir mais em silagem e armazenagem. Existe linha do BNDES (Moderinfra) para isso, mas eles preferem transformar os caminhões em silos ambulantes, o que gerou, no passado, filas indesejáveis nos portos.
Esse discurso da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) tem como objetivo a privatização ampla, geral e irrestrita dos portos, o que é inconstitucional, mas eles acham que não. Além disso, com a proliferação de portos privativos, em condições assimétricas de competição com os portos públicos, haveria um dano significativo para o país. Porém, eles se aproveitam do fato de que o governo não enfrenta como devia essa proposta e avançam no seu discurso da ineficiência dos portos públicos.
Há tentativas constantes de alteração do marco regulatório para atender não aos produtores, mas aos armadores que serão os grandes beneficiados com essa medida, ainda que se destrua a logística do país e se criem situações adversas para os pequenos e médios exportadores e importadores. Sobre esse assunto, já escrevi muita coisa, mas sugiro a leitura de artigo do Delfim Neto, no Valor Econômico (25/3), que publiquei no meu blog.
O discurso da CNA é falho porque, no atual marco regulatório, não há nenhuma restrição à construção de portos de uso privativo pelos grandes embarcadores. Existem vários nessa situação e outros tantos poderiam ser implantados. Em Porto Velho, por exemplo, há dois terminais desse tipo: um da Cargill e outro da Maggi. Por esses terminais escoam anualmente cerca de 2,5 milhões de toneladas de soja. Então, mais uma vez fica claro que, se há problemas na logística e se eles dizem que há possibilidade de investimentos privados para novos portos visando o agronegócio, não há problema algum em fazê-lo. Na verdade, o que eles querem é fazer um portinho para escoar soja e junto um grande porto de contêineres, para atender aos armadores.
A Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) informa, em seu site, que o tempo médio de espera total dos navios, em 2007, teve os seguintes valores (bem diferentes dos apresentados na matéria), por grupo/mercadoria: soja = 58 horas; produtos químicos orgânicos = 19 horas; trigo = 9 horas; açúcar = 90 horas; produtos químicos orgânicos = 19 horas.
A maioria dos portos públicos está investindo para aumentar a capacidade de silagem e armazenamento para reduzir tempos. Ninguém está parado. Idem em relação à dragagem, cujo maior problema é solucionar ambientalmente. O problema não é se é gestão ineficiente, mas o que fazer com o material dragado. De qualquer forma, contratos de dragagem estão em andamento.
A afirmação final do Luiz Antonio Fayet, consultor logístico da CNA, é interessante por um lado e não verdadeira por outro. É verdade que não tem mais fila de caminhões no acesso ao porto de Paranaguá e Santos porque, entre outras medidas, é o porto quem está organizando a chegada das cargas e não os embarcadores. Não é verdade que têm filas no mar, mas apenas tempos de espera, suportáveis, como na maioria dos portos em todo o mundo, já que são fruto do acelerado aumento de movimentação de cargas em toda parte.
A solução para redução de tempos e custos – portanto da eficiência dos portos – está em concentrar a movimentação de contêineres para garantir ganhos de escala, o que não será possível com a pulverização de portos de carga geral conteinerizada. Para cargas de granéis sólidos, o marco regulatório, como dissemos, permite a construção e operação de terminais de uso privativo, desde que seja para carga própria e não para carga de terceiros, que é o que eles desejam.
Observação final: é verdade que podemos melhorar não só a eficiência dos portos, mas todo o processo logístico.
Nesse aspecto, há o que fazer para todos – as três esferas de governo e a iniciativa privada.
Os recursos estão disponíveis nos orçamentos, no BNDES e através de Oferta Pública de Ações.
Quando a CNA reclama, ela menciona apenas o que o governo tem que fazer, mas não faz a necessária auto-crítica em relação aos produtores e embarcadores.
(Este meu artigo foi publicado no Blog do Zé Dirceu)
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